quarta-feira, 12 de março de 2008

Submundo (segunda parte).

"É, a solidão me deixou assim... Sou um morto-vivo que vive a morte como se ela fosse uma peça teatral, que a qualquer momento tem seu fim. E o fim chegou, deixo de viver e começo a morrer nesse exato momento... Não quero isso pra mim, não assim" pensou, correndo desesperadamente ao encontro daquilo que ele não sabia o que era e não tinha a menor curiosidade de saber... Amanheceu... Dona Adelaide tocava a campainha do apartamento de Pablo mas era em vão.. ele não estava lá, não queria estar lá, havia sumido no meio da escuridão de seus sonhos não existentes naquele mundo perdido. Pablo estava largado no chão de alguma rua que não conhecia, estava perdido naquele antro de mentiras e ilusões, queria estar morto mas não estava.. Estava mais vivo do que nunca por despertar daquele paraíso criado por sua inocente mente sonhadora de um jovem que queria mudar o mundo com suas próprias mãos, mas foi derrotado por elas mesmas quando ligou aquela maldita tv na noite anterior... Não dormiu, não falou nada, não respondia nenhuma pergunta curiosa das pessoas que passavam por ele... Parecia que o mundo inteiro estava observando sua queda e que estavam todos rindo do seu fracasso como homem. "Sim, sou um fracasso como homem, choro por não ter aquilo que pensava ter, grito por aquilo que pensava falar, falo por aquilo que pensava ouvir, ouço por aquilo que eu ainda penso em ter..." Levantou daquela calçada imundo, cheia de maldade impregnada naquelas pedras, começou a andar em direção ao seu prédio com um sorriso sarcástico nos lábios, pensando como aquelas pessoas eram hipócritas, acreditavam em qualquer coisa, eram meras marionetes daquele lugar sem alma... Chegou em casa e viu Dona Adelaide desesperada em sua porta, pensou em alguma mentira para contar e entrou sozinho, queria e precisava ficar sozinho dentro de seu casulo, pelo menos até arrumar suas coisas... Fez uma pequena mala somente com roupas, seus papéis, sua caneta e alguns livros que gostava de ler antes de dormir.. Pegou sua redação, suas chaves, dinheiro e se despediu de Dona Adelaide como se estivesse indo para sua morte, como se nunca mais voltasse... Desceu as escadas do prédio ouvindo aquelas conversas sem sentido daquelas senhoras nas janelas mas não ligou muito, passou reto, não olhou para trás. Agradeceu Dona Adelaide com uma rosa que deixara em suas mãos antes de descer. Ela chorava, mas estava feliz em ver seu amado vizinho, praticamente um filho pra ela, acordar para vida e decidir ser mais do que um simples escritor de uma pequena editora... Depois de ter entregue seu texto ao seu ex-chefe, pois havia pedido demissão daquele cubículo que chamavam de editora, foi direto ao aeroporto. Queria sumir daquele país por algum tempo, ou para sempre, não tinha decidido ainda. Comprou uma passagem para os Estados Unidos, mais precisamente Manhattan, Nova Iorque. Seu vôo estava previsto para as 8:30 am, mas atrasou um pouco, o que causou um grande tumulto nas portas daquelas salas de embarque. "Preciso urgentemente sair desse mundinho, até os aviões estão atrasados sem ter congestionamento no céu... Imagine um ônibus então, deve chegar com mais de dias de atraso" pensou Pablo, pegando sua maleta e seu casaco para embarcar. O vôo em si foi tranquilo, tirando aquelas mulheres histéricas com medo do avião cair ou sei la o que, aqueles senhores roncando em todo lugar e aquelas crianças que não param quietas um só segundo, mas tirando isso foi um dos melhores que Pablo tinha feito. Desceu do avião e respirou bem fundo, na hora sentiu a diferença de ar, das pessoas, dos olhares. Ninguém olhava ninguém com desprezo, mas sim com curiosidade, um olhar diferente de tudo... Não sabia explicar a sensação da mudança que aquilo fez em seu mundo, em sua mente. Era isso o que ele queria, ou achava que queria... Pegou um táxi e foi para um hotel, não muito caro mas era o hotel mais bonito que tinha pisado em sua vida inteira.. Deitou naquela enorme cama e adormeceu, sem se quer tocar em algum livro que estava na mala. Acordou somente no outro dia, disposto a procurar um emprego o mais rápido possível. Por sorte sabia bem inglês, francês, alemão e espanhol.. Arranjou um emprego no mesmo dia e ja começou a trabalhar. Passaram meses e ele nunca reclamou de nada, nem do seu chefe, nem da sua vida, nem das notícias do jornal das 8. Ligava todos os dias para Dona Adelaide para saber se estava bem ou se precisava de alguma coisa, agradecia todos os dias a ajuda dela durante anos e sempre falava que iria busca-la o mais breve possível. Um ano se passou e ele não havia dado conta que ja era dia 11 de março de 2001.. Que a um ano atrás esse mesmo dia foi um dos piores de sua vida... Não queria lembrar mas sua mente não o deixava esquecer. Mas aquele dia foi completamente diferente ao outro, ele estava feliz.. Tinha comprado seu apartamento perto das Torres Gêmeas, conhecidas como World Trade Center, as maiores do mundo e as mais belas torres que ele ja tinha visto... Ligou para Dona Adelaide e contou a novidade, falou que em alguns meses estaria lá no Brasil para busca-la, iria morar com ele e seriam como mãe e filho. Ela, como sempre, falava que não precisava se preocupar com uma velha sem era nem bera, mais pra lá do que pra cá, quase com os dois pés na cova, mas ele se preocupava assim mesmo, queria Dona Adelaide perto, necessitava de sua presença e de seu espirito... Durante 6 meses ele foi o homem mais bem sucedido em seu trabalho, conquistou tudo o que sempre quis, era um escritor renomado e conhecido em toda cidade... Mas estava meio incomodado com tudo isso, queria ver seus livros publicados mas não queria aquele preço alto da fama.. Não sabia se queria, não queria saber se queria isso tudo que tinha... No dia 10 de setembro de 2001 ligou para Dona Adelaide novamente falando que no dia seguinte estaria lá e não queria saber de desculpas, iria traze-la com ele e fim de papo! Mas Pablo não sabia o que aconteceria naquele 11 de setembro de 2001. Não sabia que ficaria louco como aquela noite, não sabia que iria perder coisas que o deixaria mais dependente ainda do seu submundo em seu refúgio mental do que ele ja era... Antes de dormir ele pensou "Se eu sou um morto-vivo que vive a minha própria morte a cada dia, ja morri um ano e não me dei conta... Estou mais morto do que vivo desde aquele dia, mas agora com mais uma responsabilidade. Se eu morrer todos saberão, irão dar conta da minha desistência desse mundo cruel, irão saber que sou apenas um fraco com medo de sair do meu casulo e mostrar minha verdadeira face. Sou um louco que pensa com o coração, age com a razão e vive a favor da morte. Se eu morrer o que será do meu humilde mundo? Não posso contar a ninguém aquilo que realmente penso, aquilo que acontece dentro de mim... Posso morrer sem saber quem sou, posso viver uma mentira, mas cada dia que passa sei que estou ficando mais louco e mais dependente da minha própria loucura."... e dormiu, sem ler e sem entender o porque daquilo, o porque daquele pensamento naquela hora... só sabia que estava louco e que não queria deixar de ser louco, só não queria depender da sua loucura para descobrir o que ele realmente é (...)

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!!!Poxa vida, você deveria ser escritora, este texto ficou ainda melhor que o primeiro.
Assim vc vai acabar escrevendo um livro chamado "Submundo"!
Estou muito orgulhosa de você e feliz por vc ter esse dom de escrever coisas lindas e com conteúdo, que fazem a gente parar para pensar em nossas vidas e de como podemos melhorá-las de alguma forma.
Parabéns Chú, que Deus te abençoe e te proteja nessa sua nova caminhada para o universo da literatura!
Te amo muito, e estarei sempre do seu lado, não se esqueça nunca disso!
Bjinhos