quinta-feira, 13 de março de 2008
Submundo (terceira parte: O Lado Negro da História)
Depois de ter pensado aquilo sem saber ao certo o porque, o motivo pelo qual aquele dia de terror que marcou a sua vida veio de repente a sua mente, teve uma péssima noite. Pesadelos atrás de pesadelos, suava frio, tremia, falava, gritava, queria mas não conseguia acordar... Alguma coisa o prendia naquele sono horrível, parecia que alguém queria que ele ficasse cada dia mais louco, que pensasse cada dia mais naquele 11 de março de 2000, estava sofrendo demais.
Seus pensamentos não eram mais certos, parecia que sua mente sangrava de tanta dor.. Acordou, exatamente as 8:46 a.m. com um barulho e um tremor enorme... Olhou pela janela e ficou paralizado.
Em menos de um minuto toda a sua vida passou como um flash em sua mente, o seu submundo foi destruído com uma só visão. Não entendia mais nada do que se passava ao seu redor, não conseguia pensar em nada mas estava pensando em tudo ao mesmo tempo. Não via, não ouvia, não piscava... Ficou imóvel, parecia morto, preferia morrer ao ver aquilo. Chamas refletiam em seus olhos como se saissem dos próprios, uma fumaça negra invadia seu apartamento como se tomasse conta de tudo que era dele, gritos ecoavam em sua mente como se fossem ganidos de almas sem socorro... Caiu, não sabia o que fazer. O telefone tocava mas estava tão longe, não conseguia alcançar, a mesma coisa que o prendia no sonho o prendia agora no chão como se criasse uma raiz, não conseguia mexer se quer seus olhos. Estava deslumbrado com o terror fora de sua janela.
Era uma das coisas mais surreias que tinha visto. Era tão medonho que se tornava um espetáculo e ele estava assistindo tudo de camarote, não por vontade, mas por destino. Essa coisa que o prendia ao mundo real queria que ele visse tudo e ficasse quieto, queria que ele mostrasse ao mundo sua loucura ao extremo. Era uma mancha negra que saía de todos os lugares, envolvia cada centímetro do seu corpo, entrava pelos olhos, nariz, boca, ouvidos e ia direto para seu submundo perfeito, seu refúgio, seu casulo de todas as horas dificies.
Não conseguia entrar, estava bloqueado, fechado somente para ele e isso causava uma dor imensa em sua cabeça, parecia que iria explodir a qualquer momento. Só não sabia que esse momento estava mais próximo do que podia imaginar.
Exatamente as 9:02 ele ouviu aquele estrondo novamente, aquilo ecoava em seu cérebro, tomava conta de sua mente. Ele não acreditava em seus próprios olhos, nunca poderia imaginar que aquilo estaria acontecendo bem do lado de sua casa. Tudo era tão confuso... Aquele lugar que a um ano se sentia o homem mais seguro do mundo, naquele instante se desfez, foi a baixo como se não estivesse ali... Parecia de papel que aquelas chamas enormes iam queimando lentamente só para ele ver o que o mundo real pode fazer em qualquer lugar, qualquer hora...
O telefone tocava desesperadamente, estava do seu lado mas não conseguia alcançar. Aquela mancha negra que descia das paredes de sua casa tomava conta de tudo. Ele não queria sair dali, se beslicava para ver se aquilo tudo não era um sonho... Ah! Como ele queria acordar e ver que aquele filme de terror real era fruto de sua imaginação fértil.
Queria, mas como sempre não era...
Ainda caído em frente a sua varanda ligou a tv. No mesmo instante teve a certeza que aquilo não era um sonho. Estava em todos os jornais... Os gritos desesperados ainda ecoavam em sua mente, torturando-o...
Colacava a mão na cabeça num ato de parar aquele eco mas era em vão, não parava, ficava cada vez mais forte, cada vez mais medonho.
Começou a falar para si mesmo "Não, eu não sou louco, não quero ser louco, não preciso ser louco. Isso não vai fazer com que eu dependa da minha loucura... Louco eu? Não sou louco... Louco não, não posso ser, não posso morrer agora, não posso desistir agora, não quero ser fraco. Sou fraco, sou louco, desisto. Eu desisto!... esse mundo não tem mais jeito, quero meu mundo, preciso dele, agora. Não agora, depois. Louco, louco, quem é louco? Ou melhor, quem é normal? Prefiro ser louco, quero ser louco. Louco sem dependência. Louco, apenas louco..."
Depois de duas horas conseguiu atender o telefone.. Era o vizinho de Dona Adelaide avizando que ela havia falecido as 8:46 daquela manhã... Ele caiu novamente, teve a sensação de ir ao inferno e voltar em menos de um segundo. Estava mais morto do que a Dona Adelaide.
"Agora sim, era tudo que precisavam para me deixar completamente dependente da minha loucura. Se estão pensando que irei desistir, estão completamente enganados. Agora que eu vou lutar com todas as minhas forças contra a lucidez. Ainda sou um morto-vivo, cada dia mais morto por vontade própria. Querem que eu viva, não consigo viver. Descobri minha loucura e eu a amo com todas as minhas forças. Prefiro o meu mundo ao terror dessa sociedade medíocre. Quem eles pensam que são? Pessoas morrem como se fossem nada, são comparadas ao lixo escrotal, são reduzidas a pior que nada. Eu sou louco sim! Amo ser louco, tenho prazer em ser louco. Vou fazer da minha morte uma obra que ficará marcada para sempre nesse mundo tosco. Agora sou eu, minha loucura e meu mundo contra forças desconhecidas. Se irei vencer ou não isso só o tempo irá dizer.. Mas não vou desistir enquanto houver um sopro de morte em minha louca e linda vida, nessa realidade ordinária que todos acham que é verdadeira, mas na verdade suga a alma e a transforma em um fardo que carregamos para o nosso túmulo sem nos darmos conta. Quando se derem conta disso ficarão igual a mim, loucos perdidos nesse casulo negro chamado Terra!" (...)
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