terça-feira, 18 de março de 2008
Submundo (sexta parte: O Imaginário torna-se Real).
Dentro de alguns dias Pablo iria descobrir que ser um dos soldados celestiais era mais que um fardo e uma responsabilidade, era uma missão a ser cumprida, um teste de fé.
Acordou com uma sensação não muito boa, uma angustia no peito que o sufocava, um enjoo, nauseas, meio febril. Renan o esperava na sala da fazenda com um copo de café amargo e um bilhete em um papel amarelado nas mãos. Pablo surgiu na sala como um relâmpago, virou-se para Renan, assustado, pegou o bilhete das mãos dele e leu. Na mesma hora caiu sentado na poltrona, branco que nem papel, fechou os olhos por um instante...
Quando abriu de volta estava completamente diferente, sem aquele mal estar nem aquele susto de quando leu o bilhete. "Nossa, o que houve comigo agora? Fiquei bom em um piscar de olhos, literalmente." Renan o observava atentamente, meio preocupado com a reação que teve, mas com aquele ar calmo e sobrenatural de sempre.
Os dois sairam sem dar muita explicação, não trocaram uma palavra, só olhares e ja sabiam aonde e o que iriam fazer.
Estava frio naquele dia, foram para casa de Renan e colocaram roupas quentes, todas pretas. Foram direto para a cidade vizinha. Ninguém de Santa Bárbara gostava muito daquela outra cidade, sempre falavam que parecia uma cidade fantasma, que os moradores de la eram cheios de mágoas no coração. Uma cidade estranha, com nome estranho, tudo estranho.
Os dois seres de luz entraram naquele lugar sinistro como se estivessem indo para uma guerra, todos os olhavam com uma fome no olhar, fome de gente nova.
Pararam em frente ao maior prédio da cidade, que era muito maior que Santa Barbara, e pediram para falar com Ténèbres, o frances mais obscuro que existe no universo inteiro. Ténèbres era dono de tudo naquela cidade, até das pessoas que la habitavam. Na porta de seu apartamento estavam dois cães enormes instalados estrategicamentes, um em cada lado, exalando um fedor que impregnava nas paredes, no chão, nas portas, em tudo. Entraram sem bater na porta, sem abrir a porta e sem falar nada. Ténèbres estava em sua poltrona preta fumando seu charuto que fedia a sete léguas. Não sabiam se eram os cães ou o charuto que fedia mais. Pararam na frente do frances e ficaram la, por alguns minutos calados, esperando aquele ser escroto balbuciar as boas vindas contrárias a eles. "Ora, ora, ora.. O que meu caro e amado irmãozinho bastardo está fazendo em meu clã? Desejas algo ou é somente uma visita familiar?" Renan se agitou mas manteve sua classe celestial, como sempre. Mandou Pablo ficar ali, parado e atento a todos os passos dos subordinados de Ténèbres. "Não venho por vontade própria, nem sou ironico ao ponto de fingir alegria em ver-te. Venho por ordens superiores e para informar-te que a guerra começará em menos de 15 dias. Quero que saibas que não restará pedra sobre pedra e que este momento é o melhor para pedir desculpas ao teu pai." Ténèbres fitou-o com ódio, parecia que chamas exalavam de seus olhos. "Nunca! Nunca voltarei para o lugar que me expulsaram. Não sou nenhum cachorrinho que volta com o rabo entre as pernas. Não estou arrependido. E pode ter absoluta certeza que não restará pedra sobre pedra. Esta é a última guerra nesse mundinho lixo. Cansei disso aqui.. Agora vai embora, antes que eu perca o resto da minha paciencia." Ténèbres se levantou da sua poltrona e sumiu no meio das trevas que apareceram no chão. O fedor dos cachorros ficou muito mais forte quando Ténèbres sumiu dali.
Pablo não acreditava no que tinha visto ali, naquele simples prédio, naquela cidade.
"O que foi aquilo? O que era aquilo? Aquela cidade infestada por demonios alados e carrancudos me encarando com fome nos olhos. Aquele frances com ar de sei la o que. Aqueles servos, aqueles cachorros, aquele cheiro. Estava realmente no inferno. Me senti como um passaro em seu primeiro vôo. Não via a hora de sair dali. Precisava de alguma luz. Não conseguia encontrar meu mundo no meio daquele horror. Esqueci completamente a minha loucura diante do olhar daquele ser tosco e nojento. Como pode ser irmão de Renan? Tão diferentes mas tão iguais... Nunca pensei que encararia um demonio, um vampiro e um ser surreal da forma que encarei agora. Lord Ténèbres, quem diria. Um vampiro no meio dos mortais. Sugou toda a minha energia pura, me deixou um lixo, completamente imprestavel somente com um olhar. Preciso revitalizar as minhas forças. Vou me afogar em meu mundo, preciso urgentemente da minha loucura. Não preciso mais de livros, estou vivendo a história mais surreal existente em todos os mundos. Amanhã é um novo dia, preciso buscar perguntas as minhas respostas. Me afundo na luz, voltarei ao amanhecer. Não sou nada sem a luz, estou morto como podem ver. Até breve, ou quando a luz voltar. Estou bem, entendendo e concordando cada dia mais com a minha missão nesse lixo".
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