segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Rabiscos de uma mente sonhadora.

Sentada no topo de uma montanha, olhando tudo passar ao redor, contemplando o céu mais lindo que alguém poderia imaginar, ouvindo somente o som do vento soprando as folhas das árvores como uma doce e melancolica sinfonia orquestrada diretamente pela sua mente enquanto o som das águas indo e vindo lembravam a inquietação e o entusiasmo de quem só ouve, magnificado com a mais bela música que existe no mundo, ela pensava. Não só pensava como imaginava um bilhão de coisas ao mesmo tempo, tentando entender alguns porquês que a vida coloca no meio do caminho, como se fossem pedras no seu sapato ou farpas no seu dedo, as vezes machucando mas servindo de algo. No que estava pensando não era propriamente o que interessava, não era muito diferente do que a maioria das pessoas pensam quando se pegam em momentos assim, quietos e calmos.. Esses momentos nos fazem pensar, quase nos obrigam a pensar em várias coisas e querer, por mais difícil que for, entende-las e conseguir ao menos saber como ir além disso ou simplesmente como deixar tudo para trás, tudo aquilo que faz as farpas e as pedras nos machucarem. Mas, o que realmente importava era o que ela imaginava, como ela imaginava e o quanto essa imaginação se tornaria real a partir daquele único momento. Ela estava sozinha naquele lugar, não completamente, estava com a natureza em sua mais bela e pura forma, mas sozinha em relação aos humanos. Era como ela sempre quis, um momento sem ninguém para interromper a linha de pensamentos mesclada com a imaginação, era o que ela desejou uns dias antes e não conseguiu obter por conta de uma das farpas que ainda conseguia machucar. Foi então que ela percebeu que aquele momento único não deveria passar sozinho, ela deveria ter alguém ali com ela, alguém que não seria uma farpa ou uma pedra, alguém que ela sabia que não iria interromper a sua imaginação, mas que faz parte dela, como um sonho se tornando realidade, sendo projetado da sua mente ao mais puro ar das montanhas... Ali, bem na sua frente, bem naquele momento com o cenário mais perfeito que possa existir. A partir dai ela não quis mais estar sozinha, ela não quis mais imaginar aquilo tudo sem ter a peça chave da sua imaginação com ela, mas ela simplesmente não queria parar de imaginar, nem por um segundo queria deixar de pensar no que e como seria se tudo aquilo pudesse se tornar real naquele instante... Ela quis deixar de ouvir somente o som do vento, queria ouvir uma voz, queria ouvir qualquer coisa além dos próprios pensamentos submersos na sinfonia divina.. Ela queria olhar mais além do que o céu, ou as águas, ou as árvores dançando e brincando com o vento. Ela queria olhar nos olhos de alguém. Não queria falar, não precisaria falar. Queria tocar, ser tocada, ouvir uma respiração, sentir o coração de alguém batendo junto com o seu... Isso era o que faltava na sinfonia, isso a tornaria exclusivamente perfeita. Foi então que ela fechou os olhos e por um momento, um curto espaço de tempo entre o real e o imaginário, ela conseguiu ouvir sua sinfonia se tornar perfeita, com tudo o que tinha direito. Ousou até sentir o toque, a respiração.. Queria ter ousado mais, queria ir além daquilo tudo... Mas, mais do que isso, ela queria que não tivesse fim. Poderia ouvir essa sinfonia a vida toda que nunca enjoaria, nunca nem se quer pediria um momento de silêncio, pois ela não precisava.. Dizem que o silêncio tras paz, ela discorda. A sua paz estava ali, bem descrita e desenhada em forma de nuvens e fumaças da imaginação, reflexos da sua mente, todos se refletindo na água que continuava ir e vir, no vento que continuava a tocar sua música, nas árvores que continuavam a brincar e dançar, no céu com suas nuvens em formas contínuas ou abstratas, algumas lembrando animais, outras exatamente desenhadas para a sua imaginação. Conforme o tempo foi passando ela permanecia com os olhos fechados praticamente o tempo todo, abrindo de vez em quando só para não se perder da total beleza do seu cenário especialmente desenhado.. Foi em uma dessas contemplações de beleza que ela pôde perceber que ja havia escurecido e que a sinfonia estava mais grave, mais alta e mais bela. O vento uivava entre as árvores e as águas se debatiam nas pedras suplicando atenção maior do que a do vento. Era de fato a parte final daquela bela música, o clímax, onde tudo que acontece deve ser resolvido e logo depois se coloca o ponto final. Era lindo, tão lindo.. mas, era triste. Ela ainda não queria que terminasse, queria ficar submersa nos seus sonhos lúcidos por toda a vida, queria viver ali, naquele lugar, com os seus pensamentos imaginatórios e o que a inspirava a tê-los. Então, abriu os olhos de uma só vez, mesmo contra a vontade. Foi presenteada com a mais bela lua que possa existir. Um céu coberto por um véu negro onde estrelas cintilavam, sempre brincando, sempre alegres.. e no meio, bem no meio daquele véu estava ela, majestosamente linda e brilhante como nunca tinha visto. A lua.. como ter palavras para descrever a beleza única? Não tem, ela não tinha como transformar em palavras o que estava vendo e sentindo naquele momento... Ela encarava a lua e a lua a encarava com o olhar mais doce e sutil. Era como se a observasse o tempo todo e soubesse exatamente o que ela estava pensando momentos antes de acordar dos seus sonhos. Ousou até em ver um sorriso naquela forma brilhante e estupenda no céu, como se tudo o que ela tivesse imaginado fosse realmente o que era pra ser, como se um toque de destino não fizesse mal a ninguem e que realmente a vida poderia ser boa ao menos uma vez. Não importava a sensatez nem a razão naquele momento, ela se entregou completamente aos sentimentos e a forma de ver o mundo com outros olhos, como uma legitima sonhadora e romancista, coisa que ela tinha esquecido como era boa... Mas, como tudo na nossa existencia um dia se vai, ela teve que deixar ir também, somente por uma razão... Não gosta de prender nada que é belo, pois a liberdade é uma das coisas mais lindas que existe nesse mundo. Deixou todos aqueles sonhos naquela montanha, na pedra em que sentava todos os dias e ficava ouvindo aquelas sinfonias perfeitas, nenhuma igual a anterior, mas todas perfeitamente feitas para ela. Foi então que antes dela ir embora ela pensou em mais uma coisa... Ela deixou tudo ir.. Mas, um dia ela leu uma frase em que fazia sentido naquele momento... Ficou olhando aquela paisagem, aquela pintura real que estava diante dos olhos do mundo com aquela frase em mente. Não queria deixar aquilo la, então disse para si mesmo, bem baixinho: "Amo a liberdade, por isso deixo livre tudo que tenho… Se voltar é porque conquistei, se não é porque nunca as possuí." e foi embora.. O que seria um momento de tristeza para certas pessoas, para ela era somente o começo da verdadeira felicidade. Ela ainda não tirou nada do que pensou da sua mente, mesmo sem a sua bela pintura... Todos os seus sonhos voltam todos os dias, todo o tempo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

De tão lindo, me dói.

Certas coisas não tem explicação, simplesmente nos encantam como se não houvesse meio de ficarem mais lindas ou menos interessantes.
Uma bela paisagem não precisa de palavras, ela é autoexplicativa, nos transmite tudo pelo simples olhar, tão insuficiente ao ser humano.
A maioria das pessoas procuram algo puramente romântico, alguma pintura ou algum poema ultra romancista, algo que toque não só a ela, mas a todos ao redor...
Eu já prefiro algo unicamente belo, algo que só eu consiga enxergar a verdadeira beleza e ficar admirada observando o quão tocante aquilo pode ser.
Não procuro algo romântico, nem bizarro, nem coisas engraçadas.. Não procuro, as coisas que me encantam me acham e me fazem perder a fala.
Poucas coisas me encantam realmente, acho que por não conseguir me adequar ao que a sociedade chama de “normal”, ou pelo simples fato de não achar que coisas “normais” tenham beleza suficiente para me encantarem.
Não vou dizer que tudo o que é estranho me encanta, mas tudo que foge do normal tem la a sua beleza mesclada com o mistério de não ser considerada normal e o fato de não serem normais já é um ótimo ganho a favor da real beleza, pois beleza não é normal.
Adoro as coisas simples. A real beleza não está em coisas extremamente chamativas ou cheias de fantasias e outros exageros, a beleza não é um carnaval ambulante.
Ninguém da importância às coisas simples. Um sorriso, um olhar, um toque.. Cores amenas, calmas.. Um riacho, uma árvore, a sombra que o sol faz contra essa árvore na beira de um riacho com o som das águas e o coaxar das árvores ao redor.. Uma brisa fresca no rosto fazendo com que o cabelo caia pelo olho, uma linha fina numa pele branca, um traço perfeito num sulfite... A tela em branco é a mais bela de todas as pinturas.
Ela pode ser qualquer coisa.
Certas pessoas são como telas em branco, nunca estão completamente terminadas e sempre e constantemente mudam a sua forma porque querem a perfeição. O único problema nisso é que elas serão sempre a tela em branco, porque perfeição é uma ilusão humana.
Have no fear of perfection, you'll never reach it.”
Mas por que seria um problema? Para mim, não existe problema em ser sempre uma tela em branco.. Não tem como cair na monotonia se você mudar constantemente.
Mas, nunca será completo.
Sempre terá aquele vazio, aquela parte que falta preencher e que não sabe com o que, porque não quer que seja qualquer coisa, quer a perfeição.
Então entra em um estado de solidão profunda em busca dessa maneira, de um jeito, qualquer que for, para encontrar o que tanto procuram e acabam sozinhos no meio de um mar de pensamentos obscuros e depressivos, pois sabem que o que procuram não pode ser alcançado.
E começam a se sentir só em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, não importa quantas pessoas estiverem ao redor, sempre se sentirá sozinho.
Mas, e se encontrar algo ou alguém que entenda como isso é?
Você se sentirá sozinho?
Ou você vai se fechar completamente porque não acredita que isso possa existir?
Seria isso a perfeição?
A parte que faltava para completar a tua tela em branco?
Nunca irá saber se não tentar...
Tente! Se deixe surpreender pelo simples fato de tentar.
Não é nada tão complicado e nem tão simples, é fantástico.
Uma das únicas maneiras de uma pessoa como essa se surpreender é ter algo além do esperado nas mãos, algo constante e inconstante ao mesmo tempo.
Depois que vê que há uma coisa assim em sua vida entra o momento mais complicado...
A dúvida.
Por que tantas dúvidas? Por que tantos atritos e tantas faltas?
Por que duvidas que algo possa ser melhor do que você realmente pensa?
As vezes uma coisa tão banal pode ser a melhor.
Uma vida sem limites, isso te assusta? Te excita? Te faz querer mais?
Sem limites para pensar, viver, agir, falar...
Simplesmente ser o que você é, sem máscaras, sem mentiras, sem medo.
Sendo assim, encantar alguém.. É algo que tu nunca tinha pensado?
As pessoas não são boas e nem más, são simplesmente encantadoras ou tediosas.
Ninguém é tão terrível ao ponto de afastar alguém...
Principalmente se esse alguém está completamente encantando por ti.
É como uma paisagem.. Não importa se chova, se faça sol, se está dia ou noite..
Ela continua a ser encantadora em todos os sentidos.
Eu prefiro chuva, raios, trovões.. Não gosto da calmaria de um dia ensolarado..
O som da chuva caindo no riacho contrastando com o clarão dos relâmpagos e os gritos desesperados dos trovões suplicando atenção em um céu cinza..
Acho uma das coisas mais lindas que possa existir.
A chuva é o choro do céu implorando que você o note, veja o quão lindo são os desenhos que os raios fazem no céu negro.. Aquela linha incrivelmente torta de propósito para formar uma beleza única.. Um corte naquilo que te encanta.
Faz você perceber que até nas coisas mais escuras há como ter um fio de luminosidade..
É só você parar para admirar como as coisas densas podem ser lindas.
Você já reparou na beleza das tempestades?
E como o céu fica limpo e muito mais bonito depois que ela termina?
É como se lavasse, tirasse todas as impurezas do céu e começasse de novo, como uma tela em branco pronta para receber os mais fortes golpes de tinta.
Nunca se esqueça de que cada atitude tua é um golpe de pincel na tela em branco de alguém que te encanta.
Tente, por mais difícil que for, não rasgar essa tela com golpes muito fortes e nem colocar muita tinta, não misture tudo de uma vez só...
Faça com que cada traço represente algo puramente belo como cada traçada de raios no céu negro.
Nada dura pra sempre.. Mas, pinturas duram, não?
Faça com que seus encantos se tornem pinturas, assim você será inesquecível na vida de alguém.. E esse alguém, com toda certeza, terá boas lembranças de tudo.
Até das mais cruéis tempestades.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Submundo (décima parte: Port Townsend, cidade proibida I)

Alkeos e Lumiére seguiram para o mundo humano, chamado Terra, para proteger alguns seres de boa índole que ainda existiam naquele fim dos mundos. Mal chegaram e já tiveram um pequeno atrito com um grupo de mal encarados na Rua XIII. Estavam na única cidade que não fora completamente dominada pelas trevas. Era pequena e praticamente desconhecida, o que ajudava na luta contra esse mal. Era o tipo de cidade que ela gostava de aparecer do nada e sumir de repente. Quando acabaram com aquele pequeno atrito, deixaram os cinco homens no chão, todos desacordados e sangrando por todos os lados. Não estavam mortos, mas iam demorar para se recuperar daquele dia... Estavam no meio de uma rua escura, virados para a parte sem saída, de costas para a avenida principal da cidadezinha. Ouviram passos, eram de mulher pois a batida do salto era bem fina e comprida, sentiram o cheiro daquele ser, um arrepio correu espinha a baixo dos dois... Sabiam exatamente quem era, mas queriam que estivessem errados. Ouviram sua risada, doce e maliciosa, a voz era hipnotizante... Lumiére ja ouvira historias sobre esse ser, mas nunca tivera o prazer (ou desprazer) de encontrá-la na sua cidade preferida. 'Hmm, o que dois homens de luz fazem em minha cidade preferida dias antes de algo interessantíssimo acontecer?'. Os dois ficaram imóveis... Lumiére nunca tinha escuta uma voz tão doce, suave, aveludada e ao mesmo tempo tão forte, perversa. Alkeos estava completamente arrepiado com aquele tom de voz único que não ouvia a mais de séculos... 'Bom, acho que algum gatinho comeu a língua de vocês, não é? Que pena... Estava tão feliz por ter reencontrado pessoas assim aqui, faz tempo que não vinhas aqui.. Me deu até uma certa saudade, mas logo passou...' No mesmo instante brotaram imagens de séculos passados na mente de Alkeos, imagens que havia esquecido e que não queria relembrar, mas foi impossível lutar contra seus próprios pensamentos... Depois de alguns minutos Alkeos voltou em si e resolveu encará-la, sabia que era o que ela queria, mas resolveu ceder... Não queria olhar aquela beleza incomum e inumana, mas era como se seu corpo não obedecesse seus pensamentos e suas ordens. Cada ano que passava ficava mais perfeita aquela beleza surreal... Exatamente quando Alkeos virou-se, Lumiére ja estava completamente hipnotizado pela beleza inumana daquele ser imprevisível... 'Lumiére, mantenha a compostura. Não queres que ela ache que tu és um bobo, não é?' Lumiére logo voltou em si e começou a encará-la como se nada tivesse acontecido... 'Ora, ora meu querido e amado Alkeos. Vejo que continuas mandão, exatamente igual a dois séculos atrás...' Alkeos estava lutando contra si mesmo, contra seus pensamentos e suas perguntas. Não queria pensar naquilo que queria, pois sabia que ela poderia ler seus pensamentos a qualquer instante. 'Bem, continuo sendo aquilo que eu era desde o dia em que me conheceu. Mas vejo que tu mudaste um pouco, não é mesmo?' Ela balançou a cabeça concordando com Alkeos e caminhando para a luz... 'Mudei, mas para melhor. Se o meu melhor não for pior, não é?' riu, com aquele riso clássico, lindo de tão malicioso que era. 'Mas quem é este ser tão bonito ao teu lado, Alkeos? Um ser novo no mundo dos bons?' Lumiére vermelhou-se, estava encabulado pelo elogio daquele ser tão belo, mas manteve o ar e a expressão séria. 'Lumiére, cavaleiro de luz.' disse ele, com um tom grave e sério. 'Uau, temos mais um francês para a família? Mas, ora essa. A maioria dos franceses estão do outro lado. Como pode?' Alkeos somente sorriu e passou por ela com um ar autoritário e superior. 'Ora Alkeos, que ar de superioridade é este? Sabes muito bem quem é superior a quem aqui...' 'Sim, sei muito bem quem é superior aqui. Mas não irei mudar meu jeito de ser pelo simples fato de superioridade maior ou menor.' Alkeos ja estava na avenida principal quando viu um ser completamente estranho, para ele, encostado na parede da esquina... 'Alkeos!' surpreendeu o menino com um tom grave e forte na voz. 'Não lembras de mim, não é?' sorriu com o mesmo ar malicioso que ela tinha. 'Diego Beltoise, estas lembrado?' Alkeos deu um pulo quando ouviu o sobrenome daquele menino. 'Beltoise? Diego Beltoise? Ora, como cresceste menino. Quantos anos tens agora?' O menino riu, balançando a cabeça com um ar de reprovação, olhando o desespero que transbordava de Alkeos... 'Sou apenas um adolescente com 17 anos... Mas farei 18 logo, logo!' riu, com aquele ar desprezivel. Alkeos riu também, estava feliz por ter reecontrado um dos Beltoise no meio daquela cidadezinha do oeste... 'Bem Diego, o que faz aqui neste lugar esquecido por Deus?' Diego não gostava muito de falar sobre seus planos, mas era Alkeos, tinha que contar. 'Estou procurando uma pessoa.. Quer dizer, estava. Acabei de encontrá-la.' Alkeos sentiu um arrepio vindo da espinha, sabia quem ele procurava, sabia o que ele queria... 'Ah sim... Bom, vou indo. Tenho muito o que fazer aqui. Boa sorte para ti e, por favor, cuidado...' Alkeos chamou Lumiére e foi embora, procurando as almas boas naquele fim de mundo chamado Port Townsend... Diego seguiu para o beco escuro onde aquele ser completamente sinistro e belo estava. 'Bella? Estas ai? Gostaria muito de falar contigo, pelo menos alguns minutos... ou segundos.' Bella, era este o nome daquela estátua viva com pele de porcelana, olhos cor de fogo, cabelos negros pela cintura. Chamava atenção pelas suas roupas pretas que contrastando com a sua pele pálida e suas unhas vermelho sangue. Um belo nome, uma bela aparência e uma bela educação. Tinha um porte nobre e superior ao andar, olhar, falar. Era séria, irônica, sarcástica... Sempre com aquele ar de quem sabe de tudo e não quer conhecer ninguém menos que a própria alma gemea... isso se existisse alguem que poderia ser comparado com aquele ser maravilhoso e sombrio. Diego era alto, forte. Um porte de lenhador, cara fechada, barba cerrada, ruivo de olhos castanhos claro. Cabelos pelo meio das costas, encaracolados nas pontas, perfeitos para Bella. Era cheinho de sardas naquela pele pálida como giz. Braços marcados pelos músculos, peito grande, costas largas. Estava vestido com uma camisa flanelada xadrez por cima de uma regata branca que marcava o seu peito forte e sua pequena barriga 'de chopp'. Usava calças pretas e uma bota de cowboy preta. Era o tipo certo de homem errado que Bella achava perfeito. Quando o viu ela quase desmaiou. Nunca imaginou, em sua 'vida', que pudesse encontrar alguém com as descrisões do homem de seus sonhos. 'Como sabes meu nome? Alias, tu és real?' Bella não sabia se estava vendo aquilo mesmo ou se era somente fruto de sua imaginação. Enquanto isso, Alkeos não tinha certeza se iria procurar as pessoas ou ficaria ali, ouvindo a conversa dos dois seres estranhamente belos no beco... Resolveu ficar um tempo ali, parado na esquina, para ter certeza que nada de errado iria acontecer. Mas ele sabia que iria acontecer alguma coisa, não exatamente de errado, mas com certa importância para os mundos. Diego não entendeu muito bem a pergunta que Bella o fizera, mas estava certo de que aquela mulher era a certa para ele. Era ela quem ele queria e era ela que iria ter. 'Sim, sou inteiramente real.. Ou pelo menos acho' riu, encabulado. Bella estava certa de que aquele menino parado a poucos metros em sua frente era quem estava esperando durante alguns anos. Não queria desperdiçar aquele momento por nada, mas estava meio envergonhada. Nunca tinha sentido aquele calor dentro dela, aquela vontade de tocar o rosto de alguém como queria tocá-lo naquele instante. Nada poderia quebrar aquele momento. Ela o admirava como se estivesse vendo o mais belo por-do-sol... 'Bella? Esta viva?' Diego preocupou-se com aquele silêncio repentino de Bella. 'Oh, estou sim. Não tão viva, mas estou melhor do que antes... Pena que não podemos conversar muito, Diego. Ja estava indo embora, preciso arrumar umas coisas.' (em mim) pensou ela... Estava completamente desnortiada, tinha que sair dali o mais depresa possivel senão ia pirar com aquela visão espetacular que estava tendo durante aqueles vinte minutos... 'Que pena, queria tanto conversar... Mas, posso saber uma coisa?' 'Sim, pergunte o que quiser... Mas rapido, estou com presa...' 'Claro, é uma pergunta básica... Como sabes meu nome?' Bella não sabia o que dizer, nem o que pensar, nem o que fazer. Estava completamente hipnotizada por aquele ser iluminado. "Como ele é bonito. Nunca vi ninguém assim" pensava ela constantemente enquanto ele esperava a resposta... 'Ahh, ouvi Alkeos falar. Se não for muito abuso te chamar assim...' 'Claro que não! Tu podes me chamar de qualquer nome.' Nesse momento ela derreteu por dentro. Ele era tão simpatico, tão bonito, tão...surreal. Não podia ser real, era perfeito demais. Não podia mais ficar ali, queria muito chegar mais perto dele, mas não podia. Não ia se controlar.. Resolveu sumir, correr o mais rapido e o mais longe que pudesse. Não queria vê-lo. Nunca mais. Mentira! Ela sabia que era mentira, mas tentava se convercer do mais óbvio. Não podia ter nada além de simples conversas. Ele era simpatico demais, na certa só queria conversar mesmo... Mas ela não! Tinha que conter aquele desejo reprimido de toca-lo, saber como era o gosto, o cheiro, os pensamentos. Não conseguia nem ao menos ler seus pensamentos... 'Bella, aonde vai? Quero te ver de novo, por favor...' 'Não! Não posso... Por favor, fique longe de mim...' Bella tinha que se concentrar na Guerra que estava por vir, estava furiosa por ninguem ter lhe contado aquele imprevisto mal armado pelos anjos e demônios de todos os mundos. Mas aquele ódio que sentia sumia no fundo dos olhos cor de mel daquele ser perfeita e estranhamente belo. Queria vê-lo mais uma vez. Mais duas, mais três... Queria vê-lo todos os dias daquela sua vida que ja não era mais vida... Queria se tornar um pouco menos estranha, queria sentir de novo o que era ser humano... Sentia aquele calor dentro de seu peito, sentia repulsa ao tentar tocá-lo, sentir o calor da sua pele tocando as pontas dos seus dedos frios... Resolveu sumir dali, num piscar de olhos. Iria acompanhá-lo pelos pensamentos de outras pessoas, principalmente de Alkeos. Diego não entendeu muito bem o porque daquele sumisso repentino, mas estava certo de que aquela garota pálida, praticamente transparente, com aquela voz aveludada, aquele riso perverso, aquele sorriso sem jeito, era a pessoa certa, aquela que ele estava esperando... Quando saiu daquele beco escuro deu de cara com Alkeos, ficou aliviado por não ter de procurá-lo no meio daquela cidadezinha... 'Posso pedir-te um favor, Alkeos? Pela amizade que tinhas com meu pai...' Alkeos sorriu. Sabia exatamente o que Diego iria pedir e ja estava com um sermão pronto na ponta da lingua... 'Claro, fale o que queres...' Diego encarou-o com um olhar desesperado e cheio de lágrimas... 'Bom, não sei como vou pedir-te isso... Sei que conhece Bella e sei que sabes que o meu desejo é maior do que minha razão... Quero poder encontrá-la novamente... Quero tocá-la, sentir a sua pele de porcelana nas minhas mãos... Quero aquele ser maravilhosamente perfeito para mim!' Alkeos ficou perplexo com aquele pedido tão sincero e tão bonito... Não teve coragem de vomitar aquele sermão que tinha em mente. 'Diego... Bella não é comum. Não é como uma garota normal que é vista de manhã nas lojas chiques dessa cidade, ou de qualquer outra... Você corre um certo perigo se tiver algumas intenções a mais com ela... Espero que quando encontrá-la consiga perceber por si só... Mas irei falar com ela, pode deixar...' Diego não prestou atenção em nada que Alkeos tinha falado, somente a última frase. Estava completamente apaixonado por aquele ser sombrio que o fitava com um olhar curioso no beco escuro... Queria vê-la o mais rápido possível, era praticamente uma questão de vida ou morte... Só não sabia que essa não era a pior parte... Estaria em risco de morte na próxima vez que a encontrasse... Que a verdadeira questão de vida ou morte não era a vontade, mas sim o acaso...

terça-feira, 1 de abril de 2008

Submundo (nona parte: Os 3 Mundos - parte III)

"Escuridão, trevas, breu, noite, ausência de luz, fim do crepúsculo... Vocês podem descrever como quiserem, mas o caminho que percorri durante essas horas era mais do que somente trevas. Não podia ver nada além de chamas flutuantes e demônios que vinham ao meu encontro, mas eram interrompidos por minha luz.. Suas silhuetas desenhadas por fogo me davam náuseas, aquele fedor... horrível. Enxofre comparado àquilo era um mar de rosas vermelhas na primavera. Aquele caminho era insuportavelmente quente e imundo. Me sentia tão sujo ao passar por ali, sentia que a cada passo que dava aquela escuridão ia sugando minha luz e minhas forças como um lobo faminto numa noite fria, que não vê a hora de encontrar alguma presa distraída... Íamos ao encontro de um ser completamente desprezível. Um ser que eu, Alkeos, não gostaria de encontrar nunca mais em minha vida, ou morte. Seu nome, Teufel. Considerado o Rei do mundo das Trevas, era completamente sem coração. Não gostava nem desgostava de ninguém, nem de nada, muito menos de mim. Tinha um ódio especial a mim, e esse mesmo é recíproco. Mas era preciso encontrá-lo. Tínhamos o dever de avisá-lo que a Guerra começará amanhã a noite e que não aceitaríamos trapaças, brincadeiras ou qualquer tipo de manifestação indesejada da nossa parte. Tínhamos o dever de avisá-lo, também, que ele deveria seguir meticulosamente as regras, senão a Guerra estaria finita e nós venceríamos. Quando chegamos a 'Sala Principal' daquele lugar grotesco, demos de cara com Teufel e seus abutres, um deles era nosso querido Ténèbres, demônio nojento e braço direito de Teufel naquele mundo escroto. Estavam todos rindo, não sei se era da nossa cara ou de alguma idiotice que fizeram. Mas isso pouco me importava, pois queria acabar logo com aquela sensação horrível que me consumia naquele lugar. 'Ora, ora, ora meus queridos abutres.. Será que eu estou vendo direito ou os meus amados olhos estão me pregando uma peça?' disse ele olhando no fundo dos meus olhos com aquelas chamas que o consumiam dentro e fora daquele corpo pútrido. Não falei nada, somente sentei em uma poltrona que estava bem na frente daquele ser e esperei aquele bando de urubus irem embora para começar a falar. Os queridos abutres e fiéis servos daquele ser imundo sumiram em meio as trevas, uivando e rindo. 'Sei que não sou bem vindo nesse mundo tenebroso e insípido que habitas, mas tenho o dever de informar-lhe que a Guerra começará amanhã, exatamente ao fim do crepúsculo, entre os dois mundos. Não haverá trapaças e tu terás que obedecer as regras. Ao contrário, nós venceremos e os teus queridos e amados servos serão extintos para sempre dos mundos!'. Aquele ser me olhava no fundo dos olhos e da alma, podendo até tocar o intocável que existia dentro do meu humilde corpo de luz. Aquilo me dava um medo e uma angustia que não cabia mais dentro de um só corpo. Lumiére estava do meu lado o tempo todo, mas mesmo assim me sentia completamente vulnerável àquele tosco com chifres e dentes que não conseguiam ficar dentro da boca. Este ser que vi estava totalmente diferente desde o último encontro entre os mundos. Não sei distinguir o que ele realmente é, só sei que é uma mistura de coisas mal feitas e mal acabadas... Meio vampiro, meio demônio, meio lobo, meio porco, meio homem. Uma mistura grotesca que me causava um mal estar terrível, náuseas, enjoos, tonturas... Mas pior ainda era quando aquilo abria aquela boca cheia de dentes afiados para responder aquilo que falava... Era um cheiro horrível, diferente de tudo o que senti e o que sentirei na 'vida'... Não aguentava chegar mais perto do que estava daquele demônio. Queria sumir dali naquele instante, mas não podia... 'Ora meu caro, estas completamente enganado sobre a minha pessoa e meus fiéis servos. Tu és totalmente bem vindo ao meu mundo das maravilhas! Percebes que sempre te recebo de braços abertos, esperando o dia que tu desças para ficar comigo eternamente... Sinto saudades tuas, sabia? Mas deixemos de lado os sentimentos e vamos direto ao ponto. Como sabes adoro trapaças, brincadeiras de mal gosto, sarcasmo e ironias... Mas não sou tudo isso que pensas. Pelo contrário, sou muito bonzinho relevando os meus defeitos e minha má aparência.. De resto, meu amado irmão, sou como você. Um ser que luta por aquilo que acredita, que defende os ideias e que é capaz de morrer por alguma coisa.. Porém, eu sou mais ambicioso, isso me torna perverso e sendo assim acaba me tornando um ser desprezível. Contos, mentiras, calúnias! Não sou tão mau assim, querido. Sou como todos os podres mortais e imortais. Apenas mais um nesses mundos loucos que alguém nos proporcionou... Pode ficar calmo e descansar em paz que irei seguir as regras. Ah! uma última coisa, mande um enorme e caloroso abraço ao nosso querido Pai, estou com saudades daquele velho brincalhão!'. Sim meus amigos, ironia até a última palavra... Sinto ódio de todas as palavras que aquele cretino vomita aos sete ventos. Ele tem coragem suficiente para falar deste jeito na minha cara e ainda sumir naquelas trevas rindo e gozando da minha cara... Fiquei aliviado, mas me subiu uma coisa tão ruim quando aquele cretino sumiu. Porém pude ir embora daquele lugar podre, espero nunca mais voltar lá! Agora, com mais esse desejo de vingança que tenho daquele ser que era meu irmão, vou poder aniquilar todos os abutres e conseguir a extinção dessa raça nojenta dos mundos. Esta Guerra será uma das mais violentas e fortes que já existiu. Podemos destruir um dos mundos se for preciso... Só tenho dó dos inocentes, mas morrerão por uma boa, aliás, ótima causa: A Extinção da Raça Pútrida. Digo e repito, não haverá nenhum sobrevivente dessa raça de imundos e garanto que nós, os seres da luz e da união celestial, venceremos mais essa batalha pela paz e harmonia mundial. Os mundos estão em perigo constante... Só temo por uma coisa. Espero que ela não saiba dessa Guerra, senão todos nós, seres de luz, de trevas e os inocentes, estaremos em perigo. Espero que, se ela ficar sabendo ou sentir que haverá uma Guerra entre os Mundos, não nos destrua, ou pior, nos castigue. Um ser tão incomum e tão imprevisível... Só temo por isso. Temo por todos. Temo pelo meu mundo..."

quinta-feira, 27 de março de 2008

Submundo (oitava parte: Os 3 Mundos - parte II)

Pablo sentiu um frio na espinha e um enjôo de repente, mas era tão forte que tomava conta de todos os milímetros de seu corpo e sua alma. Num ato instintivo, fechou os olhos e só os abriu quando aquele mal estar, que durou aproximadamente cinco minutos, passou... Quando pode abrir seus olhos viu um mundo como sempre imaginou. Estava encantado com toda aquela beleza, com toda aquela paz que existia no ar e em todas as coisas daquele lugar surreal. Correu por aquele campo imenso sem se cansar, sem ficar sem ar ou querer parar para beber água ou somente sentar. Estava deslumbrado com tudo que podia ver, ouvir, sentir, tocar e presentir naqueles campos verdes que pareciam um mar de folhas, flores e tudo o que era lindo... Sentia-se bem demais para ser verdade, pensava que nada poderia melhorar aquele momento único quando ouviu uma voz conhecida vindo de longe... "Pablo, meu querido.. Você por aqui? O que tu estas fazendo desse lado?" Quando virou, deparou-se com Dona Adelaide, sua querida e amada vizinha-mãe que o acolheu de braços abertos num forte, longo e caloroso abraço. "A senhora não mudou nada, esta mais linda do que nunca, sabia? Tu não sabes a saudade que senti dos teus cafés-da-manhã mimados, dos teus conselhos, carinhos, abraços.. Das tuas broncas, de tudo mesmo! Achei que fosse morrer sem a senhora do meu lado..." Pablo não acreditava que estava vendo Dona Adelaide novamente, tão de perto, como se ela nunca tivesse partido antes.. Quebrando aquele momento quase mágico Renan chamou Pablo, disse que precisavam ir senão não daria mais tempo... Pablo despediu-se de Dona Adelaide prometendo voltar mais vezes para visitá-la e encerrou aquela cena com um forte abraço e um beijo nas mãos de Dona Adelaide, pedindo benção a senhora mãe dele... Seguiu Renan olhando fixamente para Dona Adelaide, sentindo um enorme aperto em seu coração por deixa-la para tras, mas com um alivio por saber que estava bem... Quando olhou para frente estava entrando no meio de uma luz branca muito forte, fechou os olhos novamente para proteger-se daquela claridade imensa. Quando conseguiu se recompor daquela luz se deparou com um exército de anjos, todos em fila, com suas espadas na cintura, suas roupas de guerra e suas faces cerradas e sem nenhuma expressão, a não ser fúria e desejo de vitória sobre as forças do mal. "Nunca pensei que anjos pudessem sentir raiva, ódio, fúria.. Sentir o desejo de vingança correr por suas veias e querer acabar com aquilo que os causa mal. Os seres humanos tem uma visão completamente errada dos outros mundos... Os bons não são tão bons como pensam, e os maus são piores ainda... Espero que esse desejo que corre em minhas veias corra tambem nas dos demais aqui presentes..." Renan se apresentou para Thal, o 'senhor das guerras celestiais' e o informou que Pablo estava presente, que ele tinha achado o último anjo que faltava para os exércitos se completarem e o ciclo se cumprir... "Venho aqui apresentar-lhes o nosso anjo de luz que faltava. Nosso Alkeos perdido no tempo e espaço. Nosso ser de luz supremo. Nossa salvação!" Todos se curvaram para Pablo, o reverenciando e o aplaudindo por coisas que nem ele mesmo sabia o que eram.. Depois da cerimonia de batizado celestial Pablo não o reconhecia mais como Pablo. Havia lembrado de toda sua vida de luz e de suas conquistas. Era Alkeos, um dos 3 anjos mais poderosos do reino dos céus e o que tinha a maior responsabilidade naquela Guerra. Lembrou tambem que Ténèbres tambem era um dos 3 anjos, mas foi expulso do reino por desobediencia e traição ao Pai Supremo e a Thal, senhor dos céus. Lembrou-se tambem que foi condenado por Ténèbres a passar alguns anos na Terra, sem lembrar-se de nada, até que algum anjo o encontra-se e o levasse de volta ao reino dos céus. Pablo, agora Alkeos, comandava o exército de fogo, o maior dos exércitos celestiais existentes em toda a face de vida. Era um comandante firme, com uma voz que ecoava em todo o céu e na terra virava trovões que estremeciam as cidades mais povoadas do mundo... Parecia outra pessoa.. Aquele Pablo medroso e confuso não existia mais, agora Alkeos havia dominado todo corpo e toda a mente.. Mas ainda restava a sua loucura e seu mundo, isso nunca mudaria... Amava aquilo com todas as forças, mataria quem ousasse falar ou criticar alguma coisa do que pensava da sua loucura e de seu mundo... Tinha ódio no olhar que era repelto de chamas... Alkeos era o Deus do Fogo, o mais poderoso deus que ja existiu... Era, comparado a Thal, um aprendiz... Mas comparado ao resto dos seres de luz era um mestre... Não via a hora daquela guerra maldita começar. Queria destruir tudo o que Ténèbres havia conquistado. Queria destruir aquele que o destruiu... "Agora que eu descobri o meu verdadeiro eu desejo a vingança... A mais cruel e macabra vingança dos mundos. Quero a morte àquele que me matou. Quero a destruição à tudo aquilo que aquele ser pútrido, nojento. A Guerra eu irei, e não para ser derrotado. Quero e vou conseguir a minha vitória, minha plena e santa vitória em cima daqueles que quiseram me ver destruído e jogado as traças... Daqui a duas noites a Guerra começará, não restará nenhum ser das trevas para contar história. Meu fogo consumirá todos aqueles que cruzarem meu caminho. À luta e à vitória! Essa Guerra é a comemoração da minha volta. Somente eu, Alkeos, Deus do Fogo, posso ter o prazer de festejar..." Lumiére o reverenciou e falou que precisava conversar com o seu mestre. Alkeos o abraçou bem forte e disse "Eu sou eternamente agradecido à você, meu querido e eterno amigo!", sairam do meio dos exércitos e sumiram em meio a luz, sem previsão de volta...

quinta-feira, 20 de março de 2008

Submundo (sétima parte: Os 3 mundos - parte I).

Pablo havia perdido completamente suas forças naquele lugar infernal onde esteve na noite seguinte. Não entendia como aquele ser escroto conseguia, com um olhar, sugar toda sua luz daquele jeito. Sentia-se como um nada perto dele, como se ele não existisse, como se sua presença ali não fizesse diferença, como se não tivesse a mínima importância. Sentiu medo, medo de morrer, medo de ser morto por aquele ser cruel e sem coração. Medo por Renan, medo por seu mundo e sua loucura. Dormiu duas noites seguidas, sem se quer abrir os olhos para ver o sol nascer naquele campo enorme, a luz refletir naquele riacho. Renan preocupou-se um pouco, mas sabia que Pablo precisava recuperar toda a sua energia e sua luz para poder lutar, dar tudo de si naquela maldita Guerra entre os mundos. Quando acordou, numa noite fria e chuvosa onde as nuvens negras engoliam o céu e mostravam que as trevas estavam cada dia mais próximas dali, deu de cara com um ser estranho. Só conseguia ver duas enormes asas negras paradas em sua frente, esperando ansiosamente seu despertar daquele sono profundo. Seu nome era Armand, um ser dividido entre a luz e as trevas, condenado por Ténèbres e salvo por Renan. Armand servia somente a ele mesmo e tinha o poder de mudar a cabeça das pessoas com um estalar de dedos. Pablo se levantou correndo, enrolado em seu lençol branco, tremendo de frio. Armand aproximou-se "Tu não precisas temer, não lhe farei mal algum. Estou aqui a pedido de Lumière para cuidar de seu mais novo protegido. Meu nome é Armand e o prazer é todo meu, Pablo". Estava confuso, não sabia quem era esse tal de Lumière muito menos o que ele queria. Não era protegido de ninguém e não gostou nada do ar sínico de Armand. "Um minuto, quem é esse tal de Lumière? E o que esta fazendo aqui? Não preciso de proteção, muito menos a de um anjo negro." e saiu do quarto a procura de Renan. Armand já estava parado em frente a poltrona da sala de estar quando Pablo terminou de descer as escadas. "Meu Deus, como isso é possível? Tu não estavas la em cima?"... "Meu caro e idolatrado Alkeos, não vês que não sou humano? Não tenho nenhuma parte humana neste corpo frio e branco. E as tuas perguntas, posso responder em um piscar de olhos, se quiseres." Pablo sentou, sem entender nada, e começou a ouvir Armand... "Sabe, querido Alkeos, tu eras esperado durante mais de 300 anos, tens que aprende a ser o que és o mais rápido que puderes. Não há tempo para questionamentos, muito menos para perguntas sem sentido. O que deves saber Lumière lhe contará. Só estou aqui a favor e a minha hora acabou. Lumière esta chegando, tu ficarás bem. Adeus, até a Guerra." Logo após Armand sumir na escuridão do canto da sala Renan entrou pela porta principal e despertou Pablo daquele transe quase hipnótico. "Vamos Pablo, temos muito o que fazer e o que conversar. Soube que já conheceste Armand, meu misterioso amigo. Pedi a ele que tomasse conta de ti enquanto dormias. Percebi que não foste muito com a cara dele, não é? Mas tu tens que se acostumar. Irás vê-lo muito a partir de agora." Palo começou a entender quem era Lumière e o que estava acontecendo ali. "Armand te chamou de Lumière, por que? É teu nome no outro mundo?". Renan não gostava muito de perguntas desse tipo, mas sabia que Pablo estava confuso e precisava de respostas urgente, senão iria enlouquecer ainda mais. E essa hora não era a mais apropriada para este fato. "Sim, é meu nome quando fui batizado como anjo da luz. O teu é Alkeos, mas tu não sabes pois ainda não fostes ao outro mundo." Pablo estava cada dia mais confuso e mais ciente de que era realmente um ser da luz, que pertencia a outro mundo. Pertencia aquele mundo que criou em sua mente. Agora tinha certeza de que aquele tão esperado mundo existia e estava louco para ver, sentir e tocar tudo o que havia lá.. "Mal posso esperar para ir ao outro mundo. Agora tenho certeza que o meu mundo existe, que não é somente fruto da minha imaginação. Posso ser quem eu sou sem medo de parecer outra coisa. Posso mostrar a todos a beleza da minha loucura, como ela é auto-suficiente o bastante para criar um mundo que existe e que eu pertenço. Poucos pertencem e eu sou um dos escolhidos. Agora eu posso me apresentar corretamente e mostrar quem eu sou. Posso descrever claramente tudo que vejo, tudo o que tinha medo de ver por simples egoismo da minha parte. Não queria saber como as pessoas eram por medo de odia-las ou ama-las. Posso voltar a ver minha querida Dona Adelaide. Ah, que saudade dela... Posso ver as pessoas que morreram aquele dia e sentir o bem que aquilo fez a elas. Somos egoistas demais para ver o lado bom das coisas. Só quando nos entregamos a nossa própria loucura é que ficamos sãos e salvos de todo mal que nos rodeia. Não podemos entregar nossa queria loucura de graça, temos que lutar por ela e criar na nossa inocente mente o mundo perfeito que nos encaixamos corretamente. O nosso mundo, só nosso, e temos que acreditar naquilo que pensamos. Porque a nossa mente é o que somos, na íntegra. Temos que deixar nossos pensamentos falarem por nós mesmos, sem medo de ferir ou magoar as pessoas, pois se elas gostarem mesmo, tiverem um carinho especial, irão entender e concordar com aquilo que falamos. Seja livre e conheça o mundo real, o que a nossa imaginação cria. Deixe a loucura fluir em suas veias, revele para o mundo sua loucura. Assim serás livre para ver o que eu vejo, aquilo que realmente importa nas pessoas. Seja o bem ou mal"... Pablo foi despertado por Renan, deveriam ir ao encontro de Armand. A Guerra começará em poucos dias, precisamos nos encontrar e planejar tudo o que faremos. "Vamos Alkeos, nosso mundo nos espera"...

terça-feira, 18 de março de 2008

Submundo (sexta parte: O Imaginário torna-se Real).

Dentro de alguns dias Pablo iria descobrir que ser um dos soldados celestiais era mais que um fardo e uma responsabilidade, era uma missão a ser cumprida, um teste de fé. Acordou com uma sensação não muito boa, uma angustia no peito que o sufocava, um enjoo, nauseas, meio febril. Renan o esperava na sala da fazenda com um copo de café amargo e um bilhete em um papel amarelado nas mãos. Pablo surgiu na sala como um relâmpago, virou-se para Renan, assustado, pegou o bilhete das mãos dele e leu. Na mesma hora caiu sentado na poltrona, branco que nem papel, fechou os olhos por um instante... Quando abriu de volta estava completamente diferente, sem aquele mal estar nem aquele susto de quando leu o bilhete. "Nossa, o que houve comigo agora? Fiquei bom em um piscar de olhos, literalmente." Renan o observava atentamente, meio preocupado com a reação que teve, mas com aquele ar calmo e sobrenatural de sempre. Os dois sairam sem dar muita explicação, não trocaram uma palavra, só olhares e ja sabiam aonde e o que iriam fazer. Estava frio naquele dia, foram para casa de Renan e colocaram roupas quentes, todas pretas. Foram direto para a cidade vizinha. Ninguém de Santa Bárbara gostava muito daquela outra cidade, sempre falavam que parecia uma cidade fantasma, que os moradores de la eram cheios de mágoas no coração. Uma cidade estranha, com nome estranho, tudo estranho. Os dois seres de luz entraram naquele lugar sinistro como se estivessem indo para uma guerra, todos os olhavam com uma fome no olhar, fome de gente nova. Pararam em frente ao maior prédio da cidade, que era muito maior que Santa Barbara, e pediram para falar com Ténèbres, o frances mais obscuro que existe no universo inteiro. Ténèbres era dono de tudo naquela cidade, até das pessoas que la habitavam. Na porta de seu apartamento estavam dois cães enormes instalados estrategicamentes, um em cada lado, exalando um fedor que impregnava nas paredes, no chão, nas portas, em tudo. Entraram sem bater na porta, sem abrir a porta e sem falar nada. Ténèbres estava em sua poltrona preta fumando seu charuto que fedia a sete léguas. Não sabiam se eram os cães ou o charuto que fedia mais. Pararam na frente do frances e ficaram la, por alguns minutos calados, esperando aquele ser escroto balbuciar as boas vindas contrárias a eles. "Ora, ora, ora.. O que meu caro e amado irmãozinho bastardo está fazendo em meu clã? Desejas algo ou é somente uma visita familiar?" Renan se agitou mas manteve sua classe celestial, como sempre. Mandou Pablo ficar ali, parado e atento a todos os passos dos subordinados de Ténèbres. "Não venho por vontade própria, nem sou ironico ao ponto de fingir alegria em ver-te. Venho por ordens superiores e para informar-te que a guerra começará em menos de 15 dias. Quero que saibas que não restará pedra sobre pedra e que este momento é o melhor para pedir desculpas ao teu pai." Ténèbres fitou-o com ódio, parecia que chamas exalavam de seus olhos. "Nunca! Nunca voltarei para o lugar que me expulsaram. Não sou nenhum cachorrinho que volta com o rabo entre as pernas. Não estou arrependido. E pode ter absoluta certeza que não restará pedra sobre pedra. Esta é a última guerra nesse mundinho lixo. Cansei disso aqui.. Agora vai embora, antes que eu perca o resto da minha paciencia." Ténèbres se levantou da sua poltrona e sumiu no meio das trevas que apareceram no chão. O fedor dos cachorros ficou muito mais forte quando Ténèbres sumiu dali. Pablo não acreditava no que tinha visto ali, naquele simples prédio, naquela cidade. "O que foi aquilo? O que era aquilo? Aquela cidade infestada por demonios alados e carrancudos me encarando com fome nos olhos. Aquele frances com ar de sei la o que. Aqueles servos, aqueles cachorros, aquele cheiro. Estava realmente no inferno. Me senti como um passaro em seu primeiro vôo. Não via a hora de sair dali. Precisava de alguma luz. Não conseguia encontrar meu mundo no meio daquele horror. Esqueci completamente a minha loucura diante do olhar daquele ser tosco e nojento. Como pode ser irmão de Renan? Tão diferentes mas tão iguais... Nunca pensei que encararia um demonio, um vampiro e um ser surreal da forma que encarei agora. Lord Ténèbres, quem diria. Um vampiro no meio dos mortais. Sugou toda a minha energia pura, me deixou um lixo, completamente imprestavel somente com um olhar. Preciso revitalizar as minhas forças. Vou me afogar em meu mundo, preciso urgentemente da minha loucura. Não preciso mais de livros, estou vivendo a história mais surreal existente em todos os mundos. Amanhã é um novo dia, preciso buscar perguntas as minhas respostas. Me afundo na luz, voltarei ao amanhecer. Não sou nada sem a luz, estou morto como podem ver. Até breve, ou quando a luz voltar. Estou bem, entendendo e concordando cada dia mais com a minha missão nesse lixo".