terça-feira, 11 de março de 2008
Submundo (primeira parte).
Uma rua escura, sem saída, perto de uma das avenidas principais da cidade de São Paulo... Uma noite fria e chuvosa, mas não qualquer chuva, essa era forte demais, parecia que alguém lá em cima estava com tanta raiva que queria acabar com toda a cidade em poucos minutos... Um prédio antigo, somente 3 andares, apartamentos não muito grandes, vizinhança estranha cheia daquelas velhas fofoqueiras que ficam o dia inteiro na janela conversando sobre aquilo que não diz respeito a nenhuma delas... Um homem, com aproximadamente 26 anos mas com aparência de um velho cansado. Seu nome era Pablo, alto, forte, trabalhador até demais para a idade dele... Veio do interior de Minas Gerais para morar nesse inferno de cidade somente para estudar e conseguir um trabalho digno, o que não aconteceu, logico, pois nessa cidade a única coisa que não tem é um trabalho digno! Era quieto, não ligava para as velhas fofoqueiras de janela e muito menos para o que falavam da vida dele, morava sozinho naquele prédio simples, mas vivia bem e nunca reclamava da vida nem se queixava de nada. Trabalhava em casa, era escritor em uma pequena editora na Avenida Paulista, perto de onde morava, pois ia andando todos os dias as 7 da manhã e voltava as 9, no máximo 9:30. No dia seguinte a essa chuva de derrubar o mundo ele saiu, como sempre, as 7 da manhã do humilde prédio mas voltou mais cedo, exatamente as 8:15. Essa hora ja era de costume as velhas fofocando nas janelas de suas respectivas cozinhas, mas Pablo não ligava, dava bom dia a todas e entrava no prédio, sem dar muita conversa a essas senhoras conversadeiras, como ele mesmo dizia. Era vizinho de Dona Adelaide, a única senhora não fofoqueira da rua e a quem tinha o maior respeito e carinho do mundo. Dona Adelaide mimava Pablo até o último instante do dia, nunca faltava nada no apartamento, mas como dizia Pablo era mais um apertamento do que apartamento. "Nunca vi um lugar tão grande ter tão pouco espaço útil. Ou será que eu que sou tão desorganizado?" pensava ele todos os dias quando acordava, tomando o café preparado por Dona Adelaide. Nesse dia, mais precisamente 11 de março de 2000, não havia tomado seu costumeiro café da manhã preparado carinhosamente, havia voltado mais cedo e começou a arrumar o seu apartamento... "Nossa, que dia tão estranho esse... Como pode eu, que não sou lá de arrumar coisas, estar arrumando meu apartamento inteiro, sem reclamar?" pensou ele, surpreso... Depois de quase 2 horas arrumando a sua própria bagunça, sentou. Pegou seus papéis da editora e começou a escrever sobre o que seu chefe pedia... Mas, houve um pequeno problema, seu chefe não havia pedido nada, não sugeriu nenhum tema, só queria que Pablo escrevesse o que viesse a sua mente. E o mais estranho, não tinha prazo de entrega... Pablo pegou sua xícara de café, doce e quase gelado, sentou-se na sua poltrona, ligou a tv que a tempos não era ligada e ficou olhando para ela como se fosse uma invenção nova em seu planeta, como se nunca tivesse visto algo tão moderno assim... Mas ele olhava e não via nada, não via nem ouvia nada do que estava la, estava submerso em sua mente e seus pensamentos que o mundo poderia explodir e ele não iria dar conta... Ficou a tarde inteira assim... Despertou desse 'sono' quando começou o jornal as 7, que na verdade era o horario da novela que Dona Adelaide assistia em seu apartamento todos os dias depois de fazer a janta dele... Começou a prestar atenção nas notícias e percebeu que o mundo em que vivia estava em declínio constante e que ele nunca tinha se dado conta disso.. "Será? Isso não pode ser verdade. O mundo em declínio e eu aqui, fechado em meu mundo? Como pode isso? Acho que é hora de apelar para as forças e formas desconhecidas e que eu nunca acreditei na vida..." falou para si mesmo. No mesmo instante pegou papel e sua caneta que tinha ganhado de Dona Adelaide e começou a escrever o texto que seu chefe havia pedido de manhã. Escrevia tão rápido e com palavras tão cheias de ódio do próprio ser humano que quando parou, achou que poderia matar alguém naquele instante e não sentiria nada, nem ficaria arrependido depois... Começou a chover novamente, na mesma hora que a noite anterior, mas a chuva era mais forte ainda... Clareava sua sala como nunca, tremia o prédio como um terremoto de praticamente 6.0 naquela escala que mede terremotos... "Nunca sei o nome dessa escala, mas isso não importa, o que importa é que o mundo esta acabando... Acho melhor acreditar nessa história de Apocalipse que essas senhoras contam sempre quando alguém passa na rua..." falou, remexendo a sua mesa para encontrar a chave de seu apartamento... Deu meia noite no relógio da Igreja, as badaladas soavam como se estivessem dentro de sua cabeça, começou a andar naquela chuva, desesperado, procurando tudo no nada, nada no tudo... "Acho que estou enlouqucendo... Em menos de 24 horas descobri que nada do que eu pensava existe, que eu criei um mundo, que esse mundo não existe..." Pablo não sabia explicar, mas era surreal aquela noite. A chuva que caía não atingia nenhuma parte do seu corpo, era como se ele não estivesse ali... Corria pela rua escura como se não conhecesse a cidade, parecia perdido em seu próprio caminho.. Olhava tudo e não via nada, gritava mais ninguém escutava, chorava mais não caía nenhuma lágrima... "É, a solidão me deixou assim... Sou um morto-vivo que vive a morte como se ela fosse uma peça teatral, que a qualquer momento tem seu fim. E o fim chegou, deixo de viver e começo a morrer nesse exato momento... Não quero isso pra mim, não assim" (...)
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