sexta-feira, 14 de março de 2008

Submundo (quarta parte: A Descoberta da Verdadeira Loucura I)

Naquela noite Pablo sabia que ele não estava sozinho, que havia alguém em seu quarto o espiando, esperando um ato de loucura para espalhar para o mundo sua verdadeira vida. Não conseguia esconder seus desejos de vingança àquilo que ele não sabia nem se existia. Queria matar aquilo que matara Dona Adelaide e todas aquelas pessoas na manhã anterior. Sonhava com o dia que pudesse acabar com todo mal daquele lixo denominado mundo. Acordou desesperado, esperando que tudo aquilo fosse apenas um sonho, uma criação grotesca de sua imaginação cansada, pedindo a sua mente que pelo amor fosse somente uma ilusão obscura. Não era. Era real, foi real e o que era pior, ainda estava impregnado por aquela mancha negra que o consumia e abalava seu querido submundo de uma maneira avassaladora... Aquilo parecia um animal feroz com uma vontade imensa de saciar sua sede de sangue, de acabar com tudo que tinha vida naquele refúgio espiritual... Não havia explicação convincente para aquilo que sentia. Não era daquele mundo, era uma força maligna pronta para agir em favor das almas desesperadas com fome de vingança. Saiu daquele lugar amaldiçoado o mais rápido que conseguiu... Foi direto para a Igreja mais próxima se confessar com um padre, o que era uma surpresa pois nunca havia se confessado antes. Entrou, perguntou para algumas senhoras aonde o padre estava mas nenhuma respondeu... não o ouviam, nem o viam, muito menos o sentiam... Ele não estava lá, não sabia o porque nem como, mas não estava lá. Pelo menos não o seu corpo... Olhava para aquele templo sagrado dos homens e não entendia o porque contemplavam tanto aquele Deus que o deixara louco e desesperado, sozinho naquelas trevas, sem ninguém para ajuda-lo. Aquele que levou Dona Adelaide, que levou seus pais e todos que o amavam... Não entendia como conseguia ficar ali, vendo aqueles seres falando com quem não podiam ver. "Depois eu sou o louco... Eu só falo comigo mesmo, mas eu posso me ver. Agora eles falam com quem não conhecem, nunca viram, nunca hão de ver... Para que? Não adianta... Nada mais adianta nessa perversidade toda. Estamos mergulhados até os tubos nas trevas. Nos afogamos e não conseguiremos sair antes de que tudo acabe de vez! Só depois que ficamos loucos conseguimos sair dessa imensidão negra que estamos condenados a viver eternamente..." Andava por toda a cidade, via almas negras sugando a luz das pessoas que ainda tinham um sopro de loucura dentro de si... Tudo aquilo parecia um filme... Todas aquelas pessoas que um dia antes viram aquela cena dantesca hoje estavam trabalhando normalmente, como se nada tivesse acontecido. Como se as pessoas que morreram naquele dia não fizessem parte daquelas trevas... Saiu daquele mundo desenvolvido e foi direto para o Brasil, saber como estava a situação daquele outro lugar negro, passou por vários países, viu diversas atrocidades, pessoas que não respeitam seu semelhante, torturas, desgraças... Voltou e entrou no seu apartamento, ainda estava na cama em um sono profundo, mergulhado em uma luz que saía de seu corpo e iluminava todas as partes daquele lugar... Era o único lugar que continha esse tipo de luz. Era divino, completamente diferente aos lugares que havia passado em menos de uma hora... Se sentia revigorado. Uma felicidade invadia seu mundo de tal forma que conseguiu reconstruí-lo com um só pensamento. Não sabia descrever, mas não queria que aquilo acabasse... Acordou assustado, ainda via a luz, sentia aquela mesma alegria, podia entrar em seu mundo normalmente, só não podia abrir a porta de sua casa. Olhava pela janela e via aquelas trevas tomando o céu, invadindo as casas, derrotando as poucas almas de luz que ainda restavam em meio aquela escuridão. Precisava de ajuda, só não sabia de quem... Decidiu viajar, ir morar no interior, em algum lugar que pudesse recompor suas energias e revigorar sua alma... Chegou exatamente a meia noite do dia 14 de setembro de 2001. Ficou hospedado em uma fazenda com o nome de Belo Verde. Era enorme, singela mas enorme... Os donos tinham o coração puro, a alma de luz... Aquela cidadezinha ainda não fora dominada pelas trevas. Tinha pouco tempo para achar um número certo de pessoas com alma pura para combater aquelas forças malignas e derrotar as trevas de uma vez por todas. Aquelas almas boas eram conhecidas como anjos, a loucura aparente de Pablo era uma revelação. Um anjo perdido no caos desse mundo negro? Sim, ao que parecia. No dia seguinte, logo de manhã foi para a cidade com Dona Branca, a senhora da casa Verde... Lá conheceu Renan, o homem com a alma mais pura daquele lugar. Mas Pablo não via somente um homem... Quando avistou Renan de longe só enxergara uma luz, mas era a luz mais bonita que ele já tinha visto na vida.. A mistura de todas as cores existentes nos mundos e submundos... Aquelas asas enormes, brancas, envolvendo aquele corpo forte de guerreiro, a espada em seu quadril dava ao ar imponente de Renan uma força surreal e inigualável que irradiava em todos os cantos do planeta. Era incrível como aquela visão afetou o mundo de Pablo. Ele podia enxergar as pessoas como elas realmente são. Puras ou das trevas. "Foi surreal. Aquelas asas se abrindo refletiam aquela luz divina como se fossem águas caindo de uma cachoeira com mais de dez metros de altura. Fiquei pasmo e ao mesmo tempo me passou uma paz e uma alegria incontável... Consegui! Achei quem pode me ajudar a sair desse mar de dúvidas... Descobri que a minha loucura não é qualquer loucura. Agora a amo com mais força e sou capaz de morrer por ela. Vou lutar e vou vencer, custe o que custar! Quero ela para mim. Eu e somente eu posso ser dono da minha loucura. Não vou ceder a nenhum soldado das trevas. Sou feito de luz e só a luz pode me derrotar. Não sou mais um morto-vivo, estou morto mas vivo de luz! Sou a morte em forma humana. Sou aquilo que podemos chamar de ilusão de óptica. Estou mas não estou aqui. Sou mas não sou daqui. Sou luz, pertenço e defendo a minha loucura. Fui vencido por aquilo que nunca acreditei. Pertenço aquilo que nunca vi. Vejo aquilo que sempre quis ter. Tenho aquilo que posso, o único bem que nunca me deixou e que ninguém poderá levar de mim, a minha preciosa e amada loucura."

Um comentário:

O Fantasma de Chet Baker disse...

Oi Carolina,
adorei seus textos! Se vc quiser, mas só se quiser, dá um pulinho no meu, tá?
mil luas pra vc