segunda-feira, 17 de março de 2008

Submundo (quinta parte: ...E Começa o Deserto do Real contra o Imaginário...)

Depois daquela visão espetacular no meio daquela rua cheia de paralelepípedo ele ficou maravilhado. Nunca imaginou na vida que poderia ver aquilo assim, de repente, no meio da rua em baixo do sol do meio-dia. Custou a acreditar, ficou parado durante alguns minutos, observando aquele ser repleto de luz e paz, aquelas asas enormes eram capazes de abraçar o mundo inteiro com aquele sentimento divino que resplendia do corpo, da alma, da aura de Renan... Ficou completamente encantado. Depois de se recompor não teve dúvidas em ir falar com aquele ser maravilhoso que ali estava, parado fazia horas, sem ninguém perturbar ou ficar olhando torto. Começou a aproximar-se daquele ser de luz bem devagar, sem ousar fazer nenhum barulho, como se estivesse pisando em cacos de vidro e agulhas afiadas. Estava a menos de um metro quando Renan virou-se para ele, abriu aquelas asas enormes, olhou-o de baixo a cima com um ar de felicidade e alívio. "Até que enfim chegaste, estamos precisando da tua ajuda como ser de luz. A Guerra começará em menos de um mês e não nos resta muitas almas iluminadas nesse mundo..." falou Renan sem se quer abrir a boca. Abraçou Pablo com uma força sobrenatural e o levou para seu templo divino. "Vê, o que acha? Estamos perdidos não é mesmo? Será um milagre se vencermos essa batalha..." Pablo não entendia o porque Renan falava aquilo, daquele jeito. Parecia que ele era um ser comum, que não soubesse o poder que tem dentro dele do mesmo jeito que ele não sabia... "Preste atenção no que irei lhe falar Pablo, mas escute bem com muita atenção.. Tu és um ser divino, um dos mais poderosos e mais raros do mundo celestial. Tu não sabes o poder que tens dentro de ti, mas tens que saber usa-los corretamente. Somos praticamente iguais, só uma coisa nos diferencia..." "Não creio! Até ontem eu era um homem comum e hoje sou um ser celestial repleto de poderes raros que nem sei para que servem muito menos como e quando usa-los" "Sim, mas saberás dentro de poucos dias. Essa é exatamente a questão que nos diferencia: Eu sei do que sou capaz e do que tenho dentro de mim.. Já tu, não fazes idéia do que é capaz e do poder que tens guardado dentro de ti." Pablo ficou pasmo, não imaginava aquele poder que Renan descrevia dentro de si. Não acreditava e não queria acreditar, era responsabilidade demais, um fardo grande demais para carregar.. Por um momento ele quis não estar ali, quis não poder tanto, quis ser o que não era. Acreditava naquilo que queria e não no que Renan estava dizendo, explicando detalhadamente, cuidadosamente... Saiu dali o mais rápido possível, estava sentindo aquela mesma sensação daquele 11 de Março, não queria aquilo de novo mas era inevitável... Aquela sensação de desespero o consumia por inteiro, fazia seu mundo desabar, tudo parecer negro, sem vida. Ouvia gritos de socorro, choros, ouvia tudo de uma vez, não queria ouvir nada... Queria sumir, naquele instante. "Não, de novo não. Não aguento mais, não quero mais isso. Admito, sou louco. Um louco com alma santa, mas somente um louco como qualquer outro louco do universo. Sou um homem, um ser humano com carne, osso, órgãos. Preciso respirar para viver, mesmo que seja para viver a minha morte. Não quero ser a cronica da morte anunciada em outdoors pela cidade inteira. Eu, que era somente um simples ser esquecido no meio do nada, nesse deserto de almas perdidas na solidão da vida, que não queria mais nada da vida, nunca reclamei de nada. Justo eu? Por que, alguém me diz o por que de tudo isso? Odeio essa vida que eu descobri. Odeio esse grito na minha mente que se revolta contra si mesma. Odeio tudo! Não, tudo não. Amo a minha loucura de uma forma extrema. Não sei mais o que eu quero. Não sei mais quem eu sou. Cada dia que passa estou mais dependente da minha amada loucura. Agora estou dependente do Renan. Sem ele, quem eu sou? Nada. Um lixo que não é humano nem zumbi. Sou um nada no meio do nada. Um grão de areia desse deserto imundo. Sou SÓ mais UM, e não aquele que irá mudar o mundo. Pertenço ao meu mundo e aos meus olhos ele está perfeito. Não quero, não vou e não tenho a obrigação de ajudar. Quero minha pequena loucura de volta. Cansei desse deserto real..."

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