Sentada no topo de uma montanha, olhando tudo passar ao redor, contemplando o céu mais lindo que alguém poderia imaginar, ouvindo somente o som do vento soprando as folhas das árvores como uma doce e melancolica sinfonia orquestrada diretamente pela sua mente enquanto o som das águas indo e vindo lembravam a inquietação e o entusiasmo de quem só ouve, magnificado com a mais bela música que existe no mundo, ela pensava. Não só pensava como imaginava um bilhão de coisas ao mesmo tempo, tentando entender alguns porquês que a vida coloca no meio do caminho, como se fossem pedras no seu sapato ou farpas no seu dedo, as vezes machucando mas servindo de algo. No que estava pensando não era propriamente o que interessava, não era muito diferente do que a maioria das pessoas pensam quando se pegam em momentos assim, quietos e calmos.. Esses momentos nos fazem pensar, quase nos obrigam a pensar em várias coisas e querer, por mais difícil que for, entende-las e conseguir ao menos saber como ir além disso ou simplesmente como deixar tudo para trás, tudo aquilo que faz as farpas e as pedras nos machucarem. Mas, o que realmente importava era o que ela imaginava, como ela imaginava e o quanto essa imaginação se tornaria real a partir daquele único momento.
Ela estava sozinha naquele lugar, não completamente, estava com a natureza em sua mais bela e pura forma, mas sozinha em relação aos humanos. Era como ela sempre quis, um momento sem ninguém para interromper a linha de pensamentos mesclada com a imaginação, era o que ela desejou uns dias antes e não conseguiu obter por conta de uma das farpas que ainda conseguia machucar. Foi então que ela percebeu que aquele momento único não deveria passar sozinho, ela deveria ter alguém ali com ela, alguém que não seria uma farpa ou uma pedra, alguém que ela sabia que não iria interromper a sua imaginação, mas que faz parte dela, como um sonho se tornando realidade, sendo projetado da sua mente ao mais puro ar das montanhas... Ali, bem na sua frente, bem naquele momento com o cenário mais perfeito que possa existir. A partir dai ela não quis mais estar sozinha, ela não quis mais imaginar aquilo tudo sem ter a peça chave da sua imaginação com ela, mas ela simplesmente não queria parar de imaginar, nem por um segundo queria deixar de pensar no que e como seria se tudo aquilo pudesse se tornar real naquele instante... Ela quis deixar de ouvir somente o som do vento, queria ouvir uma voz, queria ouvir qualquer coisa além dos próprios pensamentos submersos na sinfonia divina.. Ela queria olhar mais além do que o céu, ou as águas, ou as árvores dançando e brincando com o vento. Ela queria olhar nos olhos de alguém. Não queria falar, não precisaria falar. Queria tocar, ser tocada, ouvir uma respiração, sentir o coração de alguém batendo junto com o seu... Isso era o que faltava na sinfonia, isso a tornaria exclusivamente perfeita.
Foi então que ela fechou os olhos e por um momento, um curto espaço de tempo entre o real e o imaginário, ela conseguiu ouvir sua sinfonia se tornar perfeita, com tudo o que tinha direito. Ousou até sentir o toque, a respiração.. Queria ter ousado mais, queria ir além daquilo tudo... Mas, mais do que isso, ela queria que não tivesse fim. Poderia ouvir essa sinfonia a vida toda que nunca enjoaria, nunca nem se quer pediria um momento de silêncio, pois ela não precisava.. Dizem que o silêncio tras paz, ela discorda. A sua paz estava ali, bem descrita e desenhada em forma de nuvens e fumaças da imaginação, reflexos da sua mente, todos se refletindo na água que continuava ir e vir, no vento que continuava a tocar sua música, nas árvores que continuavam a brincar e dançar, no céu com suas nuvens em formas contínuas ou abstratas, algumas lembrando animais, outras exatamente desenhadas para a sua imaginação.
Conforme o tempo foi passando ela permanecia com os olhos fechados praticamente o tempo todo, abrindo de vez em quando só para não se perder da total beleza do seu cenário especialmente desenhado.. Foi em uma dessas contemplações de beleza que ela pôde perceber que ja havia escurecido e que a sinfonia estava mais grave, mais alta e mais bela. O vento uivava entre as árvores e as águas se debatiam nas pedras suplicando atenção maior do que a do vento. Era de fato a parte final daquela bela música, o clímax, onde tudo que acontece deve ser resolvido e logo depois se coloca o ponto final. Era lindo, tão lindo.. mas, era triste. Ela ainda não queria que terminasse, queria ficar submersa nos seus sonhos lúcidos por toda a vida, queria viver ali, naquele lugar, com os seus pensamentos imaginatórios e o que a inspirava a tê-los. Então, abriu os olhos de uma só vez, mesmo contra a vontade. Foi presenteada com a mais bela lua que possa existir. Um céu coberto por um véu negro onde estrelas cintilavam, sempre brincando, sempre alegres.. e no meio, bem no meio daquele véu estava ela, majestosamente linda e brilhante como nunca tinha visto. A lua.. como ter palavras para descrever a beleza única? Não tem, ela não tinha como transformar em palavras o que estava vendo e sentindo naquele momento... Ela encarava a lua e a lua a encarava com o olhar mais doce e sutil. Era como se a observasse o tempo todo e soubesse exatamente o que ela estava pensando momentos antes de acordar dos seus sonhos. Ousou até em ver um sorriso naquela forma brilhante e estupenda no céu, como se tudo o que ela tivesse imaginado fosse realmente o que era pra ser, como se um toque de destino não fizesse mal a ninguem e que realmente a vida poderia ser boa ao menos uma vez. Não importava a sensatez nem a razão naquele momento, ela se entregou completamente aos sentimentos e a forma de ver o mundo com outros olhos, como uma legitima sonhadora e romancista, coisa que ela tinha esquecido como era boa...
Mas, como tudo na nossa existencia um dia se vai, ela teve que deixar ir também, somente por uma razão... Não gosta de prender nada que é belo, pois a liberdade é uma das coisas mais lindas que existe nesse mundo. Deixou todos aqueles sonhos naquela montanha, na pedra em que sentava todos os dias e ficava ouvindo aquelas sinfonias perfeitas, nenhuma igual a anterior, mas todas perfeitamente feitas para ela. Foi então que antes dela ir embora ela pensou em mais uma coisa...
Ela deixou tudo ir.. Mas, um dia ela leu uma frase em que fazia sentido naquele momento... Ficou olhando aquela paisagem, aquela pintura real que estava diante dos olhos do mundo com aquela frase em mente. Não queria deixar aquilo la, então disse para si mesmo, bem baixinho: "Amo a liberdade, por isso deixo livre tudo que tenho… Se voltar é porque conquistei, se não é porque nunca as possuí." e foi embora.. O que seria um momento de tristeza para certas pessoas, para ela era somente o começo da verdadeira felicidade.
Ela ainda não tirou nada do que pensou da sua mente, mesmo sem a sua bela pintura...
Todos os seus sonhos voltam todos os dias, todo o tempo.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
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