segunda-feira, 17 de março de 2008

Submundo (quinta parte: ...E Começa o Deserto do Real contra o Imaginário...)

Depois daquela visão espetacular no meio daquela rua cheia de paralelepípedo ele ficou maravilhado. Nunca imaginou na vida que poderia ver aquilo assim, de repente, no meio da rua em baixo do sol do meio-dia. Custou a acreditar, ficou parado durante alguns minutos, observando aquele ser repleto de luz e paz, aquelas asas enormes eram capazes de abraçar o mundo inteiro com aquele sentimento divino que resplendia do corpo, da alma, da aura de Renan... Ficou completamente encantado. Depois de se recompor não teve dúvidas em ir falar com aquele ser maravilhoso que ali estava, parado fazia horas, sem ninguém perturbar ou ficar olhando torto. Começou a aproximar-se daquele ser de luz bem devagar, sem ousar fazer nenhum barulho, como se estivesse pisando em cacos de vidro e agulhas afiadas. Estava a menos de um metro quando Renan virou-se para ele, abriu aquelas asas enormes, olhou-o de baixo a cima com um ar de felicidade e alívio. "Até que enfim chegaste, estamos precisando da tua ajuda como ser de luz. A Guerra começará em menos de um mês e não nos resta muitas almas iluminadas nesse mundo..." falou Renan sem se quer abrir a boca. Abraçou Pablo com uma força sobrenatural e o levou para seu templo divino. "Vê, o que acha? Estamos perdidos não é mesmo? Será um milagre se vencermos essa batalha..." Pablo não entendia o porque Renan falava aquilo, daquele jeito. Parecia que ele era um ser comum, que não soubesse o poder que tem dentro dele do mesmo jeito que ele não sabia... "Preste atenção no que irei lhe falar Pablo, mas escute bem com muita atenção.. Tu és um ser divino, um dos mais poderosos e mais raros do mundo celestial. Tu não sabes o poder que tens dentro de ti, mas tens que saber usa-los corretamente. Somos praticamente iguais, só uma coisa nos diferencia..." "Não creio! Até ontem eu era um homem comum e hoje sou um ser celestial repleto de poderes raros que nem sei para que servem muito menos como e quando usa-los" "Sim, mas saberás dentro de poucos dias. Essa é exatamente a questão que nos diferencia: Eu sei do que sou capaz e do que tenho dentro de mim.. Já tu, não fazes idéia do que é capaz e do poder que tens guardado dentro de ti." Pablo ficou pasmo, não imaginava aquele poder que Renan descrevia dentro de si. Não acreditava e não queria acreditar, era responsabilidade demais, um fardo grande demais para carregar.. Por um momento ele quis não estar ali, quis não poder tanto, quis ser o que não era. Acreditava naquilo que queria e não no que Renan estava dizendo, explicando detalhadamente, cuidadosamente... Saiu dali o mais rápido possível, estava sentindo aquela mesma sensação daquele 11 de Março, não queria aquilo de novo mas era inevitável... Aquela sensação de desespero o consumia por inteiro, fazia seu mundo desabar, tudo parecer negro, sem vida. Ouvia gritos de socorro, choros, ouvia tudo de uma vez, não queria ouvir nada... Queria sumir, naquele instante. "Não, de novo não. Não aguento mais, não quero mais isso. Admito, sou louco. Um louco com alma santa, mas somente um louco como qualquer outro louco do universo. Sou um homem, um ser humano com carne, osso, órgãos. Preciso respirar para viver, mesmo que seja para viver a minha morte. Não quero ser a cronica da morte anunciada em outdoors pela cidade inteira. Eu, que era somente um simples ser esquecido no meio do nada, nesse deserto de almas perdidas na solidão da vida, que não queria mais nada da vida, nunca reclamei de nada. Justo eu? Por que, alguém me diz o por que de tudo isso? Odeio essa vida que eu descobri. Odeio esse grito na minha mente que se revolta contra si mesma. Odeio tudo! Não, tudo não. Amo a minha loucura de uma forma extrema. Não sei mais o que eu quero. Não sei mais quem eu sou. Cada dia que passa estou mais dependente da minha amada loucura. Agora estou dependente do Renan. Sem ele, quem eu sou? Nada. Um lixo que não é humano nem zumbi. Sou um nada no meio do nada. Um grão de areia desse deserto imundo. Sou SÓ mais UM, e não aquele que irá mudar o mundo. Pertenço ao meu mundo e aos meus olhos ele está perfeito. Não quero, não vou e não tenho a obrigação de ajudar. Quero minha pequena loucura de volta. Cansei desse deserto real..."

sexta-feira, 14 de março de 2008

Submundo (quarta parte: A Descoberta da Verdadeira Loucura I)

Naquela noite Pablo sabia que ele não estava sozinho, que havia alguém em seu quarto o espiando, esperando um ato de loucura para espalhar para o mundo sua verdadeira vida. Não conseguia esconder seus desejos de vingança àquilo que ele não sabia nem se existia. Queria matar aquilo que matara Dona Adelaide e todas aquelas pessoas na manhã anterior. Sonhava com o dia que pudesse acabar com todo mal daquele lixo denominado mundo. Acordou desesperado, esperando que tudo aquilo fosse apenas um sonho, uma criação grotesca de sua imaginação cansada, pedindo a sua mente que pelo amor fosse somente uma ilusão obscura. Não era. Era real, foi real e o que era pior, ainda estava impregnado por aquela mancha negra que o consumia e abalava seu querido submundo de uma maneira avassaladora... Aquilo parecia um animal feroz com uma vontade imensa de saciar sua sede de sangue, de acabar com tudo que tinha vida naquele refúgio espiritual... Não havia explicação convincente para aquilo que sentia. Não era daquele mundo, era uma força maligna pronta para agir em favor das almas desesperadas com fome de vingança. Saiu daquele lugar amaldiçoado o mais rápido que conseguiu... Foi direto para a Igreja mais próxima se confessar com um padre, o que era uma surpresa pois nunca havia se confessado antes. Entrou, perguntou para algumas senhoras aonde o padre estava mas nenhuma respondeu... não o ouviam, nem o viam, muito menos o sentiam... Ele não estava lá, não sabia o porque nem como, mas não estava lá. Pelo menos não o seu corpo... Olhava para aquele templo sagrado dos homens e não entendia o porque contemplavam tanto aquele Deus que o deixara louco e desesperado, sozinho naquelas trevas, sem ninguém para ajuda-lo. Aquele que levou Dona Adelaide, que levou seus pais e todos que o amavam... Não entendia como conseguia ficar ali, vendo aqueles seres falando com quem não podiam ver. "Depois eu sou o louco... Eu só falo comigo mesmo, mas eu posso me ver. Agora eles falam com quem não conhecem, nunca viram, nunca hão de ver... Para que? Não adianta... Nada mais adianta nessa perversidade toda. Estamos mergulhados até os tubos nas trevas. Nos afogamos e não conseguiremos sair antes de que tudo acabe de vez! Só depois que ficamos loucos conseguimos sair dessa imensidão negra que estamos condenados a viver eternamente..." Andava por toda a cidade, via almas negras sugando a luz das pessoas que ainda tinham um sopro de loucura dentro de si... Tudo aquilo parecia um filme... Todas aquelas pessoas que um dia antes viram aquela cena dantesca hoje estavam trabalhando normalmente, como se nada tivesse acontecido. Como se as pessoas que morreram naquele dia não fizessem parte daquelas trevas... Saiu daquele mundo desenvolvido e foi direto para o Brasil, saber como estava a situação daquele outro lugar negro, passou por vários países, viu diversas atrocidades, pessoas que não respeitam seu semelhante, torturas, desgraças... Voltou e entrou no seu apartamento, ainda estava na cama em um sono profundo, mergulhado em uma luz que saía de seu corpo e iluminava todas as partes daquele lugar... Era o único lugar que continha esse tipo de luz. Era divino, completamente diferente aos lugares que havia passado em menos de uma hora... Se sentia revigorado. Uma felicidade invadia seu mundo de tal forma que conseguiu reconstruí-lo com um só pensamento. Não sabia descrever, mas não queria que aquilo acabasse... Acordou assustado, ainda via a luz, sentia aquela mesma alegria, podia entrar em seu mundo normalmente, só não podia abrir a porta de sua casa. Olhava pela janela e via aquelas trevas tomando o céu, invadindo as casas, derrotando as poucas almas de luz que ainda restavam em meio aquela escuridão. Precisava de ajuda, só não sabia de quem... Decidiu viajar, ir morar no interior, em algum lugar que pudesse recompor suas energias e revigorar sua alma... Chegou exatamente a meia noite do dia 14 de setembro de 2001. Ficou hospedado em uma fazenda com o nome de Belo Verde. Era enorme, singela mas enorme... Os donos tinham o coração puro, a alma de luz... Aquela cidadezinha ainda não fora dominada pelas trevas. Tinha pouco tempo para achar um número certo de pessoas com alma pura para combater aquelas forças malignas e derrotar as trevas de uma vez por todas. Aquelas almas boas eram conhecidas como anjos, a loucura aparente de Pablo era uma revelação. Um anjo perdido no caos desse mundo negro? Sim, ao que parecia. No dia seguinte, logo de manhã foi para a cidade com Dona Branca, a senhora da casa Verde... Lá conheceu Renan, o homem com a alma mais pura daquele lugar. Mas Pablo não via somente um homem... Quando avistou Renan de longe só enxergara uma luz, mas era a luz mais bonita que ele já tinha visto na vida.. A mistura de todas as cores existentes nos mundos e submundos... Aquelas asas enormes, brancas, envolvendo aquele corpo forte de guerreiro, a espada em seu quadril dava ao ar imponente de Renan uma força surreal e inigualável que irradiava em todos os cantos do planeta. Era incrível como aquela visão afetou o mundo de Pablo. Ele podia enxergar as pessoas como elas realmente são. Puras ou das trevas. "Foi surreal. Aquelas asas se abrindo refletiam aquela luz divina como se fossem águas caindo de uma cachoeira com mais de dez metros de altura. Fiquei pasmo e ao mesmo tempo me passou uma paz e uma alegria incontável... Consegui! Achei quem pode me ajudar a sair desse mar de dúvidas... Descobri que a minha loucura não é qualquer loucura. Agora a amo com mais força e sou capaz de morrer por ela. Vou lutar e vou vencer, custe o que custar! Quero ela para mim. Eu e somente eu posso ser dono da minha loucura. Não vou ceder a nenhum soldado das trevas. Sou feito de luz e só a luz pode me derrotar. Não sou mais um morto-vivo, estou morto mas vivo de luz! Sou a morte em forma humana. Sou aquilo que podemos chamar de ilusão de óptica. Estou mas não estou aqui. Sou mas não sou daqui. Sou luz, pertenço e defendo a minha loucura. Fui vencido por aquilo que nunca acreditei. Pertenço aquilo que nunca vi. Vejo aquilo que sempre quis ter. Tenho aquilo que posso, o único bem que nunca me deixou e que ninguém poderá levar de mim, a minha preciosa e amada loucura."

quinta-feira, 13 de março de 2008

Submundo (terceira parte: O Lado Negro da História)

Depois de ter pensado aquilo sem saber ao certo o porque, o motivo pelo qual aquele dia de terror que marcou a sua vida veio de repente a sua mente, teve uma péssima noite. Pesadelos atrás de pesadelos, suava frio, tremia, falava, gritava, queria mas não conseguia acordar... Alguma coisa o prendia naquele sono horrível, parecia que alguém queria que ele ficasse cada dia mais louco, que pensasse cada dia mais naquele 11 de março de 2000, estava sofrendo demais. Seus pensamentos não eram mais certos, parecia que sua mente sangrava de tanta dor.. Acordou, exatamente as 8:46 a.m. com um barulho e um tremor enorme... Olhou pela janela e ficou paralizado. Em menos de um minuto toda a sua vida passou como um flash em sua mente, o seu submundo foi destruído com uma só visão. Não entendia mais nada do que se passava ao seu redor, não conseguia pensar em nada mas estava pensando em tudo ao mesmo tempo. Não via, não ouvia, não piscava... Ficou imóvel, parecia morto, preferia morrer ao ver aquilo. Chamas refletiam em seus olhos como se saissem dos próprios, uma fumaça negra invadia seu apartamento como se tomasse conta de tudo que era dele, gritos ecoavam em sua mente como se fossem ganidos de almas sem socorro... Caiu, não sabia o que fazer. O telefone tocava mas estava tão longe, não conseguia alcançar, a mesma coisa que o prendia no sonho o prendia agora no chão como se criasse uma raiz, não conseguia mexer se quer seus olhos. Estava deslumbrado com o terror fora de sua janela. Era uma das coisas mais surreias que tinha visto. Era tão medonho que se tornava um espetáculo e ele estava assistindo tudo de camarote, não por vontade, mas por destino. Essa coisa que o prendia ao mundo real queria que ele visse tudo e ficasse quieto, queria que ele mostrasse ao mundo sua loucura ao extremo. Era uma mancha negra que saía de todos os lugares, envolvia cada centímetro do seu corpo, entrava pelos olhos, nariz, boca, ouvidos e ia direto para seu submundo perfeito, seu refúgio, seu casulo de todas as horas dificies. Não conseguia entrar, estava bloqueado, fechado somente para ele e isso causava uma dor imensa em sua cabeça, parecia que iria explodir a qualquer momento. Só não sabia que esse momento estava mais próximo do que podia imaginar. Exatamente as 9:02 ele ouviu aquele estrondo novamente, aquilo ecoava em seu cérebro, tomava conta de sua mente. Ele não acreditava em seus próprios olhos, nunca poderia imaginar que aquilo estaria acontecendo bem do lado de sua casa. Tudo era tão confuso... Aquele lugar que a um ano se sentia o homem mais seguro do mundo, naquele instante se desfez, foi a baixo como se não estivesse ali... Parecia de papel que aquelas chamas enormes iam queimando lentamente só para ele ver o que o mundo real pode fazer em qualquer lugar, qualquer hora... O telefone tocava desesperadamente, estava do seu lado mas não conseguia alcançar. Aquela mancha negra que descia das paredes de sua casa tomava conta de tudo. Ele não queria sair dali, se beslicava para ver se aquilo tudo não era um sonho... Ah! Como ele queria acordar e ver que aquele filme de terror real era fruto de sua imaginação fértil. Queria, mas como sempre não era... Ainda caído em frente a sua varanda ligou a tv. No mesmo instante teve a certeza que aquilo não era um sonho. Estava em todos os jornais... Os gritos desesperados ainda ecoavam em sua mente, torturando-o... Colacava a mão na cabeça num ato de parar aquele eco mas era em vão, não parava, ficava cada vez mais forte, cada vez mais medonho. Começou a falar para si mesmo "Não, eu não sou louco, não quero ser louco, não preciso ser louco. Isso não vai fazer com que eu dependa da minha loucura... Louco eu? Não sou louco... Louco não, não posso ser, não posso morrer agora, não posso desistir agora, não quero ser fraco. Sou fraco, sou louco, desisto. Eu desisto!... esse mundo não tem mais jeito, quero meu mundo, preciso dele, agora. Não agora, depois. Louco, louco, quem é louco? Ou melhor, quem é normal? Prefiro ser louco, quero ser louco. Louco sem dependência. Louco, apenas louco..." Depois de duas horas conseguiu atender o telefone.. Era o vizinho de Dona Adelaide avizando que ela havia falecido as 8:46 daquela manhã... Ele caiu novamente, teve a sensação de ir ao inferno e voltar em menos de um segundo. Estava mais morto do que a Dona Adelaide. "Agora sim, era tudo que precisavam para me deixar completamente dependente da minha loucura. Se estão pensando que irei desistir, estão completamente enganados. Agora que eu vou lutar com todas as minhas forças contra a lucidez. Ainda sou um morto-vivo, cada dia mais morto por vontade própria. Querem que eu viva, não consigo viver. Descobri minha loucura e eu a amo com todas as minhas forças. Prefiro o meu mundo ao terror dessa sociedade medíocre. Quem eles pensam que são? Pessoas morrem como se fossem nada, são comparadas ao lixo escrotal, são reduzidas a pior que nada. Eu sou louco sim! Amo ser louco, tenho prazer em ser louco. Vou fazer da minha morte uma obra que ficará marcada para sempre nesse mundo tosco. Agora sou eu, minha loucura e meu mundo contra forças desconhecidas. Se irei vencer ou não isso só o tempo irá dizer.. Mas não vou desistir enquanto houver um sopro de morte em minha louca e linda vida, nessa realidade ordinária que todos acham que é verdadeira, mas na verdade suga a alma e a transforma em um fardo que carregamos para o nosso túmulo sem nos darmos conta. Quando se derem conta disso ficarão igual a mim, loucos perdidos nesse casulo negro chamado Terra!" (...)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Submundo (segunda parte).

"É, a solidão me deixou assim... Sou um morto-vivo que vive a morte como se ela fosse uma peça teatral, que a qualquer momento tem seu fim. E o fim chegou, deixo de viver e começo a morrer nesse exato momento... Não quero isso pra mim, não assim" pensou, correndo desesperadamente ao encontro daquilo que ele não sabia o que era e não tinha a menor curiosidade de saber... Amanheceu... Dona Adelaide tocava a campainha do apartamento de Pablo mas era em vão.. ele não estava lá, não queria estar lá, havia sumido no meio da escuridão de seus sonhos não existentes naquele mundo perdido. Pablo estava largado no chão de alguma rua que não conhecia, estava perdido naquele antro de mentiras e ilusões, queria estar morto mas não estava.. Estava mais vivo do que nunca por despertar daquele paraíso criado por sua inocente mente sonhadora de um jovem que queria mudar o mundo com suas próprias mãos, mas foi derrotado por elas mesmas quando ligou aquela maldita tv na noite anterior... Não dormiu, não falou nada, não respondia nenhuma pergunta curiosa das pessoas que passavam por ele... Parecia que o mundo inteiro estava observando sua queda e que estavam todos rindo do seu fracasso como homem. "Sim, sou um fracasso como homem, choro por não ter aquilo que pensava ter, grito por aquilo que pensava falar, falo por aquilo que pensava ouvir, ouço por aquilo que eu ainda penso em ter..." Levantou daquela calçada imundo, cheia de maldade impregnada naquelas pedras, começou a andar em direção ao seu prédio com um sorriso sarcástico nos lábios, pensando como aquelas pessoas eram hipócritas, acreditavam em qualquer coisa, eram meras marionetes daquele lugar sem alma... Chegou em casa e viu Dona Adelaide desesperada em sua porta, pensou em alguma mentira para contar e entrou sozinho, queria e precisava ficar sozinho dentro de seu casulo, pelo menos até arrumar suas coisas... Fez uma pequena mala somente com roupas, seus papéis, sua caneta e alguns livros que gostava de ler antes de dormir.. Pegou sua redação, suas chaves, dinheiro e se despediu de Dona Adelaide como se estivesse indo para sua morte, como se nunca mais voltasse... Desceu as escadas do prédio ouvindo aquelas conversas sem sentido daquelas senhoras nas janelas mas não ligou muito, passou reto, não olhou para trás. Agradeceu Dona Adelaide com uma rosa que deixara em suas mãos antes de descer. Ela chorava, mas estava feliz em ver seu amado vizinho, praticamente um filho pra ela, acordar para vida e decidir ser mais do que um simples escritor de uma pequena editora... Depois de ter entregue seu texto ao seu ex-chefe, pois havia pedido demissão daquele cubículo que chamavam de editora, foi direto ao aeroporto. Queria sumir daquele país por algum tempo, ou para sempre, não tinha decidido ainda. Comprou uma passagem para os Estados Unidos, mais precisamente Manhattan, Nova Iorque. Seu vôo estava previsto para as 8:30 am, mas atrasou um pouco, o que causou um grande tumulto nas portas daquelas salas de embarque. "Preciso urgentemente sair desse mundinho, até os aviões estão atrasados sem ter congestionamento no céu... Imagine um ônibus então, deve chegar com mais de dias de atraso" pensou Pablo, pegando sua maleta e seu casaco para embarcar. O vôo em si foi tranquilo, tirando aquelas mulheres histéricas com medo do avião cair ou sei la o que, aqueles senhores roncando em todo lugar e aquelas crianças que não param quietas um só segundo, mas tirando isso foi um dos melhores que Pablo tinha feito. Desceu do avião e respirou bem fundo, na hora sentiu a diferença de ar, das pessoas, dos olhares. Ninguém olhava ninguém com desprezo, mas sim com curiosidade, um olhar diferente de tudo... Não sabia explicar a sensação da mudança que aquilo fez em seu mundo, em sua mente. Era isso o que ele queria, ou achava que queria... Pegou um táxi e foi para um hotel, não muito caro mas era o hotel mais bonito que tinha pisado em sua vida inteira.. Deitou naquela enorme cama e adormeceu, sem se quer tocar em algum livro que estava na mala. Acordou somente no outro dia, disposto a procurar um emprego o mais rápido possível. Por sorte sabia bem inglês, francês, alemão e espanhol.. Arranjou um emprego no mesmo dia e ja começou a trabalhar. Passaram meses e ele nunca reclamou de nada, nem do seu chefe, nem da sua vida, nem das notícias do jornal das 8. Ligava todos os dias para Dona Adelaide para saber se estava bem ou se precisava de alguma coisa, agradecia todos os dias a ajuda dela durante anos e sempre falava que iria busca-la o mais breve possível. Um ano se passou e ele não havia dado conta que ja era dia 11 de março de 2001.. Que a um ano atrás esse mesmo dia foi um dos piores de sua vida... Não queria lembrar mas sua mente não o deixava esquecer. Mas aquele dia foi completamente diferente ao outro, ele estava feliz.. Tinha comprado seu apartamento perto das Torres Gêmeas, conhecidas como World Trade Center, as maiores do mundo e as mais belas torres que ele ja tinha visto... Ligou para Dona Adelaide e contou a novidade, falou que em alguns meses estaria lá no Brasil para busca-la, iria morar com ele e seriam como mãe e filho. Ela, como sempre, falava que não precisava se preocupar com uma velha sem era nem bera, mais pra lá do que pra cá, quase com os dois pés na cova, mas ele se preocupava assim mesmo, queria Dona Adelaide perto, necessitava de sua presença e de seu espirito... Durante 6 meses ele foi o homem mais bem sucedido em seu trabalho, conquistou tudo o que sempre quis, era um escritor renomado e conhecido em toda cidade... Mas estava meio incomodado com tudo isso, queria ver seus livros publicados mas não queria aquele preço alto da fama.. Não sabia se queria, não queria saber se queria isso tudo que tinha... No dia 10 de setembro de 2001 ligou para Dona Adelaide novamente falando que no dia seguinte estaria lá e não queria saber de desculpas, iria traze-la com ele e fim de papo! Mas Pablo não sabia o que aconteceria naquele 11 de setembro de 2001. Não sabia que ficaria louco como aquela noite, não sabia que iria perder coisas que o deixaria mais dependente ainda do seu submundo em seu refúgio mental do que ele ja era... Antes de dormir ele pensou "Se eu sou um morto-vivo que vive a minha própria morte a cada dia, ja morri um ano e não me dei conta... Estou mais morto do que vivo desde aquele dia, mas agora com mais uma responsabilidade. Se eu morrer todos saberão, irão dar conta da minha desistência desse mundo cruel, irão saber que sou apenas um fraco com medo de sair do meu casulo e mostrar minha verdadeira face. Sou um louco que pensa com o coração, age com a razão e vive a favor da morte. Se eu morrer o que será do meu humilde mundo? Não posso contar a ninguém aquilo que realmente penso, aquilo que acontece dentro de mim... Posso morrer sem saber quem sou, posso viver uma mentira, mas cada dia que passa sei que estou ficando mais louco e mais dependente da minha própria loucura."... e dormiu, sem ler e sem entender o porque daquilo, o porque daquele pensamento naquela hora... só sabia que estava louco e que não queria deixar de ser louco, só não queria depender da sua loucura para descobrir o que ele realmente é (...)

terça-feira, 11 de março de 2008

Submundo (primeira parte).

Uma rua escura, sem saída, perto de uma das avenidas principais da cidade de São Paulo... Uma noite fria e chuvosa, mas não qualquer chuva, essa era forte demais, parecia que alguém lá em cima estava com tanta raiva que queria acabar com toda a cidade em poucos minutos... Um prédio antigo, somente 3 andares, apartamentos não muito grandes, vizinhança estranha cheia daquelas velhas fofoqueiras que ficam o dia inteiro na janela conversando sobre aquilo que não diz respeito a nenhuma delas... Um homem, com aproximadamente 26 anos mas com aparência de um velho cansado. Seu nome era Pablo, alto, forte, trabalhador até demais para a idade dele... Veio do interior de Minas Gerais para morar nesse inferno de cidade somente para estudar e conseguir um trabalho digno, o que não aconteceu, logico, pois nessa cidade a única coisa que não tem é um trabalho digno! Era quieto, não ligava para as velhas fofoqueiras de janela e muito menos para o que falavam da vida dele, morava sozinho naquele prédio simples, mas vivia bem e nunca reclamava da vida nem se queixava de nada. Trabalhava em casa, era escritor em uma pequena editora na Avenida Paulista, perto de onde morava, pois ia andando todos os dias as 7 da manhã e voltava as 9, no máximo 9:30. No dia seguinte a essa chuva de derrubar o mundo ele saiu, como sempre, as 7 da manhã do humilde prédio mas voltou mais cedo, exatamente as 8:15. Essa hora ja era de costume as velhas fofocando nas janelas de suas respectivas cozinhas, mas Pablo não ligava, dava bom dia a todas e entrava no prédio, sem dar muita conversa a essas senhoras conversadeiras, como ele mesmo dizia. Era vizinho de Dona Adelaide, a única senhora não fofoqueira da rua e a quem tinha o maior respeito e carinho do mundo. Dona Adelaide mimava Pablo até o último instante do dia, nunca faltava nada no apartamento, mas como dizia Pablo era mais um apertamento do que apartamento. "Nunca vi um lugar tão grande ter tão pouco espaço útil. Ou será que eu que sou tão desorganizado?" pensava ele todos os dias quando acordava, tomando o café preparado por Dona Adelaide. Nesse dia, mais precisamente 11 de março de 2000, não havia tomado seu costumeiro café da manhã preparado carinhosamente, havia voltado mais cedo e começou a arrumar o seu apartamento... "Nossa, que dia tão estranho esse... Como pode eu, que não sou lá de arrumar coisas, estar arrumando meu apartamento inteiro, sem reclamar?" pensou ele, surpreso... Depois de quase 2 horas arrumando a sua própria bagunça, sentou. Pegou seus papéis da editora e começou a escrever sobre o que seu chefe pedia... Mas, houve um pequeno problema, seu chefe não havia pedido nada, não sugeriu nenhum tema, só queria que Pablo escrevesse o que viesse a sua mente. E o mais estranho, não tinha prazo de entrega... Pablo pegou sua xícara de café, doce e quase gelado, sentou-se na sua poltrona, ligou a tv que a tempos não era ligada e ficou olhando para ela como se fosse uma invenção nova em seu planeta, como se nunca tivesse visto algo tão moderno assim... Mas ele olhava e não via nada, não via nem ouvia nada do que estava la, estava submerso em sua mente e seus pensamentos que o mundo poderia explodir e ele não iria dar conta... Ficou a tarde inteira assim... Despertou desse 'sono' quando começou o jornal as 7, que na verdade era o horario da novela que Dona Adelaide assistia em seu apartamento todos os dias depois de fazer a janta dele... Começou a prestar atenção nas notícias e percebeu que o mundo em que vivia estava em declínio constante e que ele nunca tinha se dado conta disso.. "Será? Isso não pode ser verdade. O mundo em declínio e eu aqui, fechado em meu mundo? Como pode isso? Acho que é hora de apelar para as forças e formas desconhecidas e que eu nunca acreditei na vida..." falou para si mesmo. No mesmo instante pegou papel e sua caneta que tinha ganhado de Dona Adelaide e começou a escrever o texto que seu chefe havia pedido de manhã. Escrevia tão rápido e com palavras tão cheias de ódio do próprio ser humano que quando parou, achou que poderia matar alguém naquele instante e não sentiria nada, nem ficaria arrependido depois... Começou a chover novamente, na mesma hora que a noite anterior, mas a chuva era mais forte ainda... Clareava sua sala como nunca, tremia o prédio como um terremoto de praticamente 6.0 naquela escala que mede terremotos... "Nunca sei o nome dessa escala, mas isso não importa, o que importa é que o mundo esta acabando... Acho melhor acreditar nessa história de Apocalipse que essas senhoras contam sempre quando alguém passa na rua..." falou, remexendo a sua mesa para encontrar a chave de seu apartamento... Deu meia noite no relógio da Igreja, as badaladas soavam como se estivessem dentro de sua cabeça, começou a andar naquela chuva, desesperado, procurando tudo no nada, nada no tudo... "Acho que estou enlouqucendo... Em menos de 24 horas descobri que nada do que eu pensava existe, que eu criei um mundo, que esse mundo não existe..." Pablo não sabia explicar, mas era surreal aquela noite. A chuva que caía não atingia nenhuma parte do seu corpo, era como se ele não estivesse ali... Corria pela rua escura como se não conhecesse a cidade, parecia perdido em seu próprio caminho.. Olhava tudo e não via nada, gritava mais ninguém escutava, chorava mais não caía nenhuma lágrima... "É, a solidão me deixou assim... Sou um morto-vivo que vive a morte como se ela fosse uma peça teatral, que a qualquer momento tem seu fim. E o fim chegou, deixo de viver e começo a morrer nesse exato momento... Não quero isso pra mim, não assim" (...)